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Brasil só tem a ganhar com o fortalecimento da indústria naval

A pressão das empresas internacionais que exploram petróleo aqui para acabar com o conteúdo local tem um só objetivo: comprar e importar os equipamentos de seus próprios países, em detrimento de nosso desenvolvimento e à custa do desemprego no Brasil


POR Omar Resende Peres

Publicado em 06 de setembro de 2017

Foto de Divulgação

Foi na Ponta da Areia, em Niterói, que Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, fundou o primeiro estaleiro do Brasil, no Império. No século 20, o regime militar deu grande impulso ao setor, e o Brasil se tornou, nos anos 70, o segundo produtor de navios do mundo.

No mesmo período, começamos o desenvolvimento tecnológico para a construção de plataformas de exploração de petróleo. Esse desafio nos tornou líderes e recordistas mundiais na exploração de petróleo em águas profundas, atingindo o recorde de 7 mil metros de lâmina d’água, na Bacia do Pré-Sal.

Só isso já seria suficiente para incentivar nossa indústria naval, imprescindível para a indústria do petróleo. Mas o Brasil oferece outras razões para apoiar esse setor fundamental para a economia do Rio (e para o país), não deixando que desapareça a atividade que pode recriar, rapidamente, milhares de empregos.

São quatro premissas fundamentais para que qualquer governo, independentemente do matiz ideológico, entenda a importância estratégica da indústria naval e reveja sua posição, mantendo a política de conteúdo local:

1) temos um parque industrial que custou bilhões de dólares em financiamento público;

2) temos mão de obra qualificada e tecnologia nacional disponíveis. Não se forma gente qualificada de um dia para o outro, e hoje somente em Niterói e região calcula-se haver mais de 50 mil as pessoas demitidas pelos estaleiros;

3) recursos financeiros disponíveis através do Fundo de Marinha Mercante e, por fim, o mais importante;

4) demanda não induzida. Em outras palavras, o Brasil precisa de todos os tipos de embarcações e equipamentos para a exploração de nosso petróleo (navios, plataformas, barcos de apoio etc.). Neste caso, não estamos criando encomendas! Elas existem e são imprescindíveis para as petroleiras. Se não forem encomendadas no Brasil, serão em Cingapura, Coreia, China, Japão, etc., criando empregos lá e desempregando aqui. Simples assim.

O Brasil precisa de todos os tipos de embarcações e equipamentos para a exploração de nosso petróleo. Se não forem encomendadas no Brasil, serão em Cingapura, Coreia, China, Japão, etc., criando empregos lá e desempregando aqui. Simples assim.

A principal alegação da Petrobras é que “nossos estaleiros não entregam nos prazos contratados e que, aqui, os produtos finais são mais caros”. Isso está longe de ser verdade e, para tirar a dúvida, a Petrobras poderia publicar os preços das plataformas e outros equipamentos que comprou fora do Brasil nos últimos 20 anos e compará-los com os similares brasileiros. A estatal poderia dizer também quanto gasta, anualmente, em afretamento de plataformas, navios e todos os demais equipamentos.

A pressão das empresas internacionais que exploram petróleo em nosso país para acabar com o conteúdo local tem um só objetivo: comprar e importar os equipamentos de seus próprios países, criando empregos e renda para seus nacionais (e com muito subsidio!), em detrimento de nosso desenvolvimento e à custa do desemprego de milhares de brasileiros.

E assim fazem todos os países que têm políticas para defender o emprego e a renda de suas economias: “Primeiro eu, depois nós…” Dou como exemplo o jovem presidente francês, Emmanuel Macron, para muitos brasileiros o símbolo da modernidade. Pois saibam, então, que ele acaba de estatizar o STX, o principal estaleiro francês, para evitar que a empresa seja comprada pela estatal italiana Fincantieri. Diz o ministro da Economia da França, Bruno Le Maire: “O único motivo da estatização é defender os interesses estratégicos franceses na construção de navios” .

Esse é um bom exemplo a ser seguido pelo governo brasileiro e pela Petrobras: modernidade na gestão da coisa pública e dos interesses do Estado é também sinônimo de defesa do mercado, do emprego e das riquezas de nosso país. No Brasil, não precisamos estatizar estaleiros. Basta sermos um pouco mais brasileiros.

* Omar Resende Peres é empresário e foi presidente do Sindicato da Indústria Naval Brasileira