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Caso Gerdau: até quando os trabalhadores vão pagar com a vida?

Nada justifica o descaso da Gerdau com manutenção preventiva e segurança no trabalho, muito menos num ano em que ela anuncia investimentos da ordem de R$ 1,3 bilhão. A Usina Ouro Branco jamais poderia submeter seus trabalhadores a acidentes e à morte.


POR Alex Santos Custódio

Publicado em 13 de setembro de 2017

Só em Ouro Branco, desde novembro, nove trabalhadores a serviço da Gerdau morreram no exercício de sua função

Foto de Divulgação

O metalúrgico Levindo Costa de Carvalho Neto faleceu no último domingo (10/9), depois de ficar internado por 26 dias num hospital de Belo Horizonte (MG). As causas de sua morte não foram naturais. Levindo, de 60 anos, foi a quarta vítima da explosão que, em 15 de agosto, atingiu a Usina Ouro Branco da Gerdau, em Minas Gerais.

No Brasil, o número de acidentes de trabalho está em queda. Segundo levantamento da Previdência Social, o País passou de 725 mil ocorrências em 2013 para 612 mil em 2015 – uma redução de 14%. Mas, conforme tem denunciado a FITMETAL (Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil), a Gerdau está na contramão dessa tendência e registra cada vez mais acidentes fatais.

Só em Ouro Branco, desde novembro, nove trabalhadores a serviço da empresa morreram no exercício de sua função. Além disso, dezenas se feriram ou tiveram algum tipo de doença ocupacional. Há denúncias de que a Gerdau não notifica 100% dos acidentes. Como a siderúrgica utiliza um grande número de terceirizados – que não têm vínculos formais –,as condições de trabalho na usina são mais perversas, devido à alta rotatividade e à precarização. Setores que já funcionaram com 11 operários dispõem hoje de apenas três. Para piorar, o acesso dos dirigentes sindicais à fábrica é proibido.

A morte de um trabalhador a serviço de qualquer empresa já é motivo de indignação. No caso da Gerdau, há agravantes que tornam a situação insustentável – a começar pela alegação de que se trata de “fatalidade”. Por trás de tantas mortes, sobressai a negligência com os 5 mil funcionários da Usina Ouro Branco, expostos à insegurança e ao medo de perder a vida. A maioria dos casos envolveu terceirizados, numa demonstração inequívoca de que Gerdau optou por um ambiente mais conveniente de desregulamentação, à margem do movimento sindical e da Justiça do Trabalho.

Os acidentes e as mortes na Gerdau devem servir de alerta ao movimento sindical. Neste momento em que a reforma trabalhista respalda a omissão dos patrões e nos expõe ainda mais a tamanhos riscos, exigir maior segurança no trabalho é fundamental.

Com 116 anos de história, 140 mil acionistas e atuação em 14 países, a Gerdau é referência internacional na indústria do aço e uma das quatro multinacionais brasileiras no ramo metalúrgico-siderúrgico (ao lado de Embraer, Marcopolo e W.E.G.). A própria empresa se vende como a “uma das maiores fornecedoras de aços longos especiais no mundo”, com “capacidade instalada superior a 25 milhões de toneladas de aço”.

Por isso, nada justifica seu descaso com manutenção preventiva e segurança no trabalho, muito menos num ano em que ela anuncia investimentos da ordem de R$ 1,3 bilhão. A Usina Ouro Branco, uma de suas “meninas dos olhos”, capaz de produzir 4,5 milhões de toneladas/ano de aço bruto, jamais poderia submeter seus trabalhadores a acidentes e à morte. Afinal, os avanços tecnológicos não devem se voltar exclusivamente à ampliação das margens de lucro.

Tão logo foi informada da fatídica explosão de agosto, a FITMETAL denunciou a criminosa displicência da Gerdau e cobrou rigorosas investigações, além de um Plano Emergencial de Acidentes de Trabalho. A convite da deputada Jô Moraes (PCdoB-MG), participamos da comitiva da Câmara Federal que foi a Ouro Branco para apurar os impactos do acidente e garantir assistência às vítimas e a seus familiares. Em 4 de setembro, participamos de audiência pública na Câmara Municipal de Ouro Branco.

Os acidentes e as mortes na Gerdau devem servir de alerta ao movimento sindical. A nova legislação do trabalho – que entra em vigor a partir de 11 de novembro – diminui a responsabilidade das empresas, estimula a terceirização e deixa a integridade do trabalhador em xeque. Neste momento em que a reforma trabalhista respalda a omissão dos patrões e nos expõe ainda mais a tamanhos riscos, exigir maior segurança no trabalho é fundamental.


Alex Santos Custódio

Secretário do Setor Automotivo e de Autopeças da FITMETAL (Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil) e secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim e Região (MG)