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Brasil: para além das nossas seculares carências sociais

Em tudo que havia alguma solidez a sustentar o pacto político-social que superou a ditadura civil-militar, convocou a Assembleia Nacional Constituinte e erigiu a Constituição de 1988 foi dinamitado.


POR Marcos Verlaine

Publicado em 29 de janeiro de 2018

Deputados federais liderados por Eduardo Cunha, então presidente da Câmara, comemoram o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Foto de Wilson Dias/Agência Brasil

Brasil. Um País com profundos contrastes e contradições, desequilíbrios, injustiças e desigualdades crescentes. Mergulhado numa profunda crise política, econômica, social e ético-moral, que fez aflorar uma direita raivosa, rancorosa, vingativa, violenta e fascistóide! Entre as manifestações de junho e julho de 2013; a reeleição de Dilma, em 2014 e o seu impeachment, em 2016; todos os problemas se agudizaram.

O Brasil retrocedeu, a economia foi estagnada, as relações trabalhistas foram mais precarizadas com a “Reforma” Trabalhista, que entrou em vigor em novembro, e que já disse a que veio. É em meio a este ambiente que marchamos para as eleições de outubro de 2018, num quadro absolutamente incerto e nebuloso. Nada aponta, até o momento, para algo positivo para o povo em geral e para os trabalhadores em particular.

Não há nessa percepção nenhum pessimismo ou qualquer coisa que o valha. O que há é uma profunda preocupação com o futuro, que neste momento se apresenta impalpável.

Há pouco mais de 3 anos, quase 4, vivíamos num ambiente que em nada se assemelha ao atual. De repente, tudo desmoronou. Virou líquido. O que aconteceu?

Desejo tentar responder à pergunta, entretanto sem a ambição de dar uma resposta completa e exata, até porque entendo que isto seria impossível neste momento. Assim, isto vai ficar para o futuro, em minha opinião, ainda um pouco distante.

O Brasil é um país cuja imensa maioria do povo está submetida a carências (para além das seculares carências sociais), de memória, de informação, de interpretação e de análise. E quem submete nosso povo a essa situação, e atraso secular, é a elite econômica. Que avilta o povo e impõe, como se normal fosse, as condições ora vividas pela maioria da população. Sem falar da falta de acesso às necessidades mais básicas de uma vida decente como: emprego, educação, saúde, moradia e segurança.

Mundo líquido

Para alcançar seus objetivos políticos e econômicos, a elite econômica local resolveu esmagar as instituições republicanas. Desse modo, submeteu as já exauridas instituições da democracia brasileira para confrontar, desgastar, emparedar e substituir o governo do qual divergia por razões ideológicas.

Para isso lançou mão de todas as práticas e ardis possíveis, até a da desmoralização da política. Assim, em tudo que havia alguma solidez a sustentar o pacto político-social que superou a ditadura civil-militar, convocou a Assembleia Nacional Constituinte e erigiu a Constituição de 1988 foi dinamitado. Ou transformado em líquido, a fim de fluir sem grandes dificuldades e atritos para o estado que ora nos encontramos.

Não teve pudor em reeditar, em novas bases, o amplo e poderoso consórcio que interditou a democracia em 1964, substituindo as Forças Armadas pelo Ministério Público. Para isso contou com a fluidez da memória nacional e outras carências que ajudam a tornar nossa democracia um regime frágil e vulnerável.

Memória

Parece brincadeira, mas não é. Uma massa de gente desmemoriada, nos últimos tempos, vira e mexe, pede a volta dos militares ao poder. Sob a falsa e errônea ideia que só as Forças Armadas poderiam colocar o país nos eixos. Não acreditam e não conseguem entender, talvez por amnésia coletiva, que uma das razões do atraso de nosso povo e Nação foi a instalação de uma ditadura civil-militar que durou 21 anos, que aprisionou o País e o submeteu ao subdesenvolvimento que há décadas tentamos superar.

Essa parcela que aqui e acolá levanta essa bandeira esdrúxula baseia-se na falsa realidade que o País vivia naquele período. Parecia estar tudo tranquilo porque, sem liberdades democráticas, com censura e sob a violência institucionalizada do Estado, a oposição ao regime militar não podia se manifestar livremente. Se o fizesse era reprimida, presa, cassada, exilada ou morta. Então, a “calmaria” era apenas aparente. Sem contar, que com a ausência de democracia e imprensa livre não se podia denunciar os desmandos e a imensa corrupção que reinava na época. As Forças Armadas não eram e nunca foram a “reserva moral” do País.

Informação

O mundo vive, nos tempos atuais, na era da informação. Somos inundados com todo tipo de informação e em grande quantidade. O que obriga a 1 mínimo de seletividade, sem a qual perde-se em generalizações e banalizações.

Empiricamente, observa-se que propositalmente se privilegia as irrelevâncias, as banalidades, as trivialidades para a imensa maioria do povo. Com o claro objetivo de mantê-lo na ignorância e, portanto, à margem de qualquer protagonismo para transformar a realidade de exclusão e alienação dos direitos mais básicos que conferem a cidadania.

Mesmo com o advento das redes sociais e tendo cerca da metade dos brasileiros acessando a internet, algo em torno de 100 milhões de pessoas, há um claro predomínio da televisão como meio de informação para a imensa maioria de nosso povo. Daí advém à influência da Rede Globo e do seu “Jornal Nacional” como uma das principais fontes primárias de informações.

A “Vênus Platinada” forma hábitos, impõe moda e narrativas, constrói e destrói reputações num instalar de dedos. Elegeu Collor presidente, em 1989, depois o derrubou. Quase emparedou o governo Lula e fez parte do consórcio que apeou Dilma da Presidência da República e instalou o caos que ora vivemos no país. Apoiou os movimentos que desembocaram no Golpe de 1964 e deram forte e decisiva sustentação ao regime militar que durou até 1985. Lidera o monopólio da informação no país, com TV, rádio, jornais, revistas e internet, que 24 horas por dias transmite o pensamento da burguesia brasileira, um pensamento único, que penetra fundo na cabeça do povo e tudo devasta.

Interpretação

Desmemoriado e sem informação, nosso povo, a imensa maioria, não tem condições de interpretar adequadamente os fatos e acontecimentos. Muitas vezes os mais comezinhos. E assim tem sido levado de roldão para lá e para cá ao bel prazer dos interesses da elite econômica dominante.

Inundam o país com irrelevâncias e mentiras e transformam o povo em massa de manobra, que ora se apassiva, ora se manifesta, que sem saber, muitas vezes se levante contra seus reais interesses e direitos. Nas chamadas jornadas de junho e julho de 2013, até as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma, isto esteve presente e o resultado todos já conhecemos.

Usou a abusou dessas carências (memória, informação e interpretação) para devastar direitos dos trabalhadores com 1 Reforma Trabalhista que solapou direitos e vulnerou a organização sindical, única instituição que luta pela manutenção e ampliação dos direitos dos trabalhadores, na condição de empregado.

Análise

Um país cuja grande maioria do povo não tem o hábito de ler (por razões históricas e decisões políticas), que é submetido à amnésia política e social e à desinformação à exaustão, não consegue interpretar a realidade adequadamente e muito menos analisa-la. Desse modo, prevalece a análise da classe dominante. Numa clara imposição de narrativa.

A classe dominante brasileira, sem ambições de ser uma elite, são ricaços gananciosos, não têm projeto de Nação. Impõe ao nosso povo a “síndrome de vira-lata”. Os últimos acontecimentos protagonizados pelo governo e a maioria do Congresso são uma síntese disso. Refiro-me, por exemplo, à “MP do Trilhão” ou “MP da Shell”, que concedeu isenção trilionária às petroleiras que venceram os leilões do pré-sal. Uma vergonha!

Tentam nos fazer crer que somos um país de corruptos. Que a maioria, se tiver ou tivesse acesso, “meteria a mão” sem pudor. Como se a corrupção fosse algo acessível para todos que quisessem e tivessem coragem.

É neste cenário de desmemoriamento geral, desinformação crescente sobre o que de fato importa, em que tem prevalecido as interpretações e análises induzidas, que parcelas expressivas dos estratos médios, em particular, fizeram até chegar ao precipício em que se atiraram de cabeça.


Marcos Verlaine

Marcos Verlaine é jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap.


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