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Longe da China e do paraíso

Os chineses mostram que industrialização e progresso podem beneficiar a classe trabalhadora. Mas os operários brasileiros ainda precisam lutar contra as “muralhas” do capital, da desindustrialização e do golpe


POR André Cintra

Publicado em 22 de março de 2018

Os padrões salariais do metalúrgico no Brasil vêm caindo ano a ano, ao contrário da realidade do operário chinês


Até pouco tempo atrás, uma das formas mais recorrentes de desqualificar o crescimento econômico da China era denunciar “abusos” nas práticas trabalhistas. No imenso país asiático, liderado desde 1949 pelo Partido Comunista, a mão de obra estaria submetida a jornadas excessivas, salários irrisórios e outras condições humilhantes. Os mais afoitos falavam até em “trabalho escravo”, num ataque às condições supostamente aviltantes nas fábricas chinesas.

A China servia de escudo. Diante de seu pretenso exemplo, um empresário brasileiro poderia cobrar mais desregulamentação da nossa economia, gritar contra o “custo Brasil” e acusar o “anacronismo” da CLT (a Consolidação das Leis do Trabalho), datada de 1943, na Era Vargas. Para ter competitividade diante de um concorrente tão desleal e incivilizado como os chineses, a indústria nacional precisaria de uma legislação trabalhista “moderna”, de desonerações sem contrapartidas e de outros privilégios quaisquer.

É verdade que, nos dois governos Lula (2003-2010), medidas como a valorização permanente do salário mínimo, a política de conteúdo local e o início das desonerações à indústria ajudaram a gerar empregos no setor, a garantir aumentos reais nos salários e a distribuir renda. Do primeiro ao último dia em que o ex-presidente Lula permaneceu no cargo, a categoria metalúrgica passou de 1,34 milhões de trabalhadores para 2,27 milhões – um salto de 68%. A evolução se manteve até 2013, no auge do governo Dilma, quando o número de postos de trabalho no ramo da metalurgia chegou a 2,44 milhões (equivalente a 5% do mercado de trabalho brasileiro).

“Enquanto na indústria metalúrgica houve uma expansão de 81,9% do emprego, no mercado de trabalho como um todo o incremento foi de 77,6%, entre os anos de 2002 e 2013”, indicou o Dieese. A imensa maioria de metalúrgicos se concentrava em quatro segmentos: siderurgia e metalurgia básica (744 mil trabalhadores), bens de capital mecânico (593 mil), automotivo (532 mil) e eletroeletrônico (433 mil). Nenhuma área do ramo, porém, se multiplicou mais entre 2002 e 2013 do que o segmento naval. Com crescimento médio de 17,5% de empregos por ano, o número de trabalhadores em estaleiros de construção, divisão de manutenção e reparação de embarcações passou de 11,9 mil para 68 mil.

A crise subsequente do setor naval, com suspensão de encomendas e fechamento em cadeia de estaleiros, reverteu a prosperidade. Mas, seja na alta, seja na baixa, a burguesia do País, sempre citando a China, queria – e exigia – mais. O governo brasileiro, conforme essa visão, precisava diminuir a tributação, “desonerar” a folha de trabalho, flexibilizar as leis trabalhistas – deixar, enfim, de “proteger” e “mimar” o trabalhador brasileiro.

Acontece que não dá mais para usar o caso chinês de referência, muito menos a lengalenga de “trabalho escravo”. Na década atual, um operário passou a ganhar mais na China do que no Brasil, conforme levantamento da consultoria Euromonitor International, revelado em fevereiro de 2017 pelo “Financial Times”. Diferentemente do que apontava o senso comum, a industrialização, o crescimento e o progresso da nação asiática não se deram à custa da classe trabalhadora – mas, sim, em benefício dela.

De 2005 a 2016, os salários por hora triplicaram na indústria chinesa (de US$ 1,20 para US$ 3,60) e regrediram no Brasil (US$ 2,90 para US$ 2,70), no México (US$ 2,20 para US$ 2,10) e na África do Sul (US$ 4,30 para US$ 3,60). De acordo com o diário britânico, “considerando todo o mercado de trabalho chinês, o salário por hora [US$ 3,30] já supera o pago em todos os países da América Latina, com exceção do Chile”. De resto, “o aumento de produtividade pode elevar ainda mais os salários na indústria do país asiático, para o patamar de países tradicionalmente considerados de renda média”.

Em julho de 2017, quando o Dieese integrou a missão sindical dos metalúrgicos da CUT a Pequim, Yixing, Shanghai, Guangzhou e Shenzen, mais novidades vieram à tona e demonstraram que crescimento e desenvolvimento podem andar de mãos dadas com a valorização do trabalho. “A China teve em 2016 praticamente 1/3 de seu PIB gerado por sua atividade industrial, com um volume de produção da ordem de 3 trilhões de dólares. Esse percentual é praticamente o triplo do Brasil e o dobro da média mundial”, registrou o Dieese. “A indústria chinesa vem crescendo a taxas médias de 7,6% ao ano desde 2010, 3 vezes acima da taxa mundial. Entre 2005 e 2014 a China criou 25 milhões de postos de trabalho, passando a 88 milhões de empregos industriais. Em 2016, o salário médio mensal de um trabalhador na indústria chinesa foi equivalente a R$ 2.157, valor 4% superior ao pago pela indústria brasileira no mês de maio, que ficou em R$ 2.071. A jornada legal de trabalho já chegou ao patamar de 40 horas semanais.” No Brasil, o metalúrgico ainda trabalha, em média, 43,1 horas por semana.

Conforme assinalou Felippe Hermes, fundador do site “Spotniks”, o operário do Brasil também tem ficado para trás em termos de produtividade. “Há meras três décadas, um trabalhador brasileiro produzia nada menos do que cinco vezes mais riqueza que um trabalhador chinês. Hoje, este número é apenas 5% maior”, escreveu Hermes, em artigo para o jornal “Gazeta do Povo”. Em uma década (2005-2015), “os chineses se tornaram em média 8,7% mais produtivos, ao ano, contra 1,1 % da média dos brasileiros”.

Para piorar, é apenas a indústria de extração – e não a de transformação – que responde pelo aumento de produtividade. Segundo Felippe Hermes, “nos tornamos mais produtivos (produzimos mais com a mesma quantidade de capital e trabalho) explorando minério de ferro do que produzindo bens de consumo por exemplo. Em 1980, um brasileiro médio produzia US$ 20 mil em riqueza por ano. Em 2015 este mesmo brasileiro produzia US$ 19 mil”. O Brasil não incorpora a tecnologia dos bens industriais produzidos no País e, por isso, registra poucas patentes.

O salário médio mensal de um trabalhador na indústria chinesa foi equivalente a R$ 2.157, acima do pago pela indústria brasileira. A jornada de trabalho é de 40 horas semanais, enquanto no Brasil se mantém, em média, a 43,1 horas por semana

A produtividade crescente, porém, é pré-condição para a melhoria nas condições de trabalho e na qualidade de vida. É o que explica a nota técnica publicada em 2017 pela CTB, com o título “A Crise na Indústria e os Trabalhadores”. Para o autor do texto, o cientista social e doutorando em Geografia Ronaldo Carmona, as chamadas “revoluções industriais” ocorrem em intervalos cada vez mais curtos, acelerando as “transformações na base produtiva” e redefinindo profundamente o mercado de trabalho.

Entre as “questões de fundo para a classe trabalhadora” decorrentes desse processo, Carmona destaca duas. Em primeiro lugar, as mudanças no perfil da classe operária. Para fazer frente às revoluções industriais, os trabalhadores passam a ter “maior nível de escolarização e renda relativamente mais elevada, com efeitos sobre sua própria identidade e sentimento de pertencimento à classe”. A segunda questão diz respeito aos impactos “extraordinários” na produtividade do trabalho, o que proporciona uma “expressa diminuição quantitativa do proletariado industrial e sua sofisticação”. Nem por isso Carmona conclui que o avanço industrial prejudica o operariado. “A evolução das forças produtivas tendencialmente permitirá aumento do tempo livre e maior qualidade de vida, se realizada sobre novas relações de produção”, diz o autor.

Outro desafio é a desconcentração industrial, conforme o livro “As Faces da Indústria Metalúrgica no Brasil – Uma Contribuição à Luta Sindical”, organizado em 2015 por André de Oliveira Cardoso, do Dieese. Mesmo no ápice registrado no primeiro governo Dilma – quando o ramo metalúrgico se distribuía em mais de 1.600 municípios de todos os estados –, havia “concentração estrutural da atividade”. De acordo com a obra, 62,4% da categoria estava no Sudeste, sendo 43,5% no estado de São Paulo. As maiores bases municipais eram a cidade de São Paulo (175.178 metalúrgicos), Manaus (93.037) e São Bernardo do Campo (66.733).

As remunerações igualmente variavam de região a região do País: “Na média, um/a metalúrgico/a recebia [em 2013] cerca de R$ 2.874,34, porém um trabalhador/a de São Paulo chegava a receber três vezes mais que um trabalhador em Roraima. No segmento automotivo, por exemplo, um/a trabalhador/a paraibano/a recebia 79,0% menos que um trabalhador/a do estado de São Paulo. Nada justifica que em determinadas áreas fabris se pratiquem remunerações que beiram o mínimo, já que os preços dos produtos desse segmento são nacionais”.

As discrepâncias se agravaram a partir do golpe de 2016 contra a presidenta Dilma. Sob o governo ilegítimo de Michel Temer, direitos trabalhistas e avanços sociais começaram a se esfacelar. É fato que a reforma da Previdência, a qual embutia o desmonte da seguridade social e, indiretamente, o fim da aposentadoria, foi barrada, graças à resistência dos trabalhadores, sob a liderança das centrais sindicais. Mas Temer e os golpistas de plantão conseguiram aprovar a PEC do Teto dos Gastos (que restringe investimentos públicos em saúde e educação por 20 anos), a nova lei da terceirização (que libera o trabalhado terceirizado até em “atividades fins”) e a reforma trabalhista (que altera mais de 200 direitos, em detrimento dos trabalhadores e do movimento sindical). Não à toa, o jornalista Umberto Martins definiu essa ofensiva como “o golpe do capital contra o trabalho”.

FITMETAL, CTB e outras entidades defendem a simplificação tributária, a desburocratização, a política de conteúdo local e os incentivos à indústria. Essa concepção tem a ver com um pensamento estratégico para o futuro da Nação, pilares de um novo projeto nacional de desenvolvimento, que gere empregos, amplie direitos e valorize o trabalho. A China – justo ela! – mostrou que esse caminho é viável e justo.

Na cena final de “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (1971), clássico do cinema político dirigido pelo italiano Elio Petri, o líder metalúrgico Lulu Massa (Gian Maria Volonté) é reintegrado à fábrica e conversa com seus companheiros. A certa altura, conta ter sonhado com um muro que dividia o grupo. O sonho é confuso. De um lado do muro, sob o pó, aglomerava-se boa parte dos trabalhadores. Do outro, na névoa, estava apenas um ex-funcionário da empresa, o veterano Militina (Salvo Randone). Ao se darem conta de que apenas a barreira à sua frente os impede de chegar ao paraíso, os operários começam a gritar: “Abaixo o muro!”. E põem o muro abaixo. Militina ainda tentar alertá-los de que, na realidade, todos os funcionários da fábrica de motores morreram. Não importa. Misturados à nevoa, ao menos eles podem se sentir no paraíso.

Mal comparando, podemos dizer, sem medo de errar, que o paraíso não está a apenas um muro dos metalúrgicos e dos demais trabalhadores da indústria brasileira. Além das contradições históricas na relação entre capital e trabalho no País, a categoria metalúrgica sofre com a desindustrialização da economia, o pacto conciliatório entre burguesia, governos e grande mídia, os retrocessos advindos do golpe de 2016 e as próprias divisões no movimento sindical. Os trabalhadores se propõem a unir forças e formar uma grande frente em defesa da reindustrialização do Brasil, com base em propostas e condições concretas, que levem ao crescimento econômico e ao desenvolvimento nacional, com valorização do trabalho. Não é preciso mirar o paraíso, e até o exemplo da China está agora a favor tanto dos empresários quanto dos trabalhadores. É hora de ousar.

 

Fonte: revista “Indústria, Desenvolvimento e Trabalho”, lançada pela FITMETAL em março de 2018, durante o Fórum Social Mundial


André Cintra

Jornalista, é assessor da FITMETAL