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Desigualdade e desenvolvimento nacional

A brutal desigualdade brasileira é o maior problema nacional e entrave estrutural para a construção de um país próspero


POR Diogo Santos

Publicado em 22 de março de 2018

Desde as privatizações e a abertura comercial e financeira da economia realizadas nos governos Collor e FHC, o Brasil perdeu parte de sua soberania. A capacidade do Estado de pôr em marcha um projeto de desenvolvimento nacional foi drasticamente reduzida e o tornou subordinado às estratégias das grandes multinacionais presentes no País, bem como do oligopólio que controla o mercado financeiro.

Nos governos Lula e Dilma, os inéditos avanços alcançados em termos distributivos não foram acompanhados de mudanças que alterassem os fundamentos do padrão de acumulação montado nos anos 1990. Por isso mesmo, no que se refere ao setor industrial, o caráter regressivo desse padrão se aprofundou.

Desde 2016, o governo Temer realiza uma nova rodada de diminuição da soberania e do poder do Estado nacional, com grandes impactos sobre o futuro do desenvolvimento, revertendo os ganhos distributivos do período anterior. A realização de um projeto nacional requer profundas mudanças nas regras de funcionamento do capitalismo no Brasil, tendo como núcleo a retomada do poder do Estado e da indústria nacional.

O desdobramento político dessa conclusão é que será preciso uma grande força política coletiva para imprimir esse rumo ao país. Como construir tal força política e mobilizadora? Ela deve se erguer sobre as diversas frações da classe trabalhadora brasileira – a qual possui forte presença de jovens e mulheres. O projeto nacional de desenvolvimento deve emergir da situação a que a maioria do povo está submetida cotidianamente, em um país subdesenvolvido na semiperiferia do sistema.

A brutal desigualdade social e econômica brasileira é o maior problema nacional e entrave estrutural para a construção de um país próspero. Essa desigualdade se manifesta de modo recíproco e cumulativo em diversas dimensões, como renda, região, sexo, raça e acesso a serviços fundamentais.

O esforço conjunto entre pesquisadores e organizações políticas interessadas no desenvolvimento poderá descortinar possibilidades

Uma estratégia nacional de desenvolvimento pode buscar a força necessária para sua efetivação nos milhões de brasileiros que convivem com essa inadmissível desigualdade. Para isso, o projeto deve derivar desse objetivo maior. Como, então, criar uma estratégia política de fortalecimento do projeto nacional em articulação orgânica com a superação da desigualdade?

Em primeiro lugar, eleger os desafios prioritários a serem superados com base em seu impacto social e poder mobilizador – por exemplo, mobilidade urbana, segurança pública e saúde. Em segundo lugar, demonstrar que o ataque profundo à desigualdade só é possível se todo o arsenal de investimento público, financiamento, política industrial e de inovação e planejamento estiverem voltados para esse objetivo, ou seja, com um projeto nacional.

O esforço conjunto entre pesquisadores e organizações políticas interessadas no desenvolvimento poderá descortinar as possibilidades embutidas em cada um dos desafios escolhidos. O objetivo central dessa proposta é dotar o desenvolvimento nacional de força política de massas e colocar em articulação os diversos setores da sociedade que hoje atuam isoladamente em temáticas afins ao desenvolvimento. Só assim será possível repor a centralidade da problemática do desenvolvimento no debate público brasileiro e reunir o poder suficiente para colocá-lo novamente em marcha.

 

Fonte: revista “Indústria, Desenvolvimento e Trabalho”, lançada pela FITMETAL em março de 2018, durante o Fórum Social Mundial


Diogo Santos

Mestrando em Economia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), é chefe de Gabinete da Secretaria de Desenvolvimento Integrado do Governo de Minas Gerais e assessor econômico da FITMETAL