Artigos

Olhares atentos à China

É fundamental olhar para a estratégia “Made in China 2025”, anunciada em 2015: trata-se de uma política de incentivo às indústrias chinesas para conquistar excelência em 10 setores de manufatura avançada, apostando (e investindo) em produção nacional


POR Janaína Silveira

Publicado em 13 de abril de 2018


Nas últimas semanas, o imbróglio que muitos já chamam de guerra comercial entre Estados Unidos e China domina as manchetes. No Brasil, aparecem análises sobre o impacto disso para o país - e não só porque a decisão norte-americana sobre as taxas tem efeito para o Brasil. O estopim foi o anúncio, em 8 de março, de que os Estados Unidos passariam a impor tarifas de 25% sobre a importação do aço e de 10% sobre a do alumínio (na Cúpula das Américas, que ocorre neste final de semana no Peru, o tema será debatido bilateralmente entre Brasil e EUA).

A partir daí, a queda de braço envolvendo EUA e China evoluiu para o anúncio de taxas em outros setores (a soja norte-americana é um exemplo), mas principalmente para o campo da propriedade intelectual. O governo de Trump sustenta que a China viole regras neste sentido. Beijing nega.

É fundamental neste ponto olhar para a estratégia “Made in China 2025”, anunciada por Beijing em 2015 e que só agora vem chamando a atenção mundial: trata-se de uma política de incentivo às indústrias chinesas para conquistar excelência em 10 setores de manufatura avançada, apostando (e investindo) em produção nacional. Os eleitos são tecnologia de informação e inteligência artificial, robótica, aeroespaço e equipamentos, tecnologia naval e equipamentos, trens de alta velocidade, veículos e equipamentos movidos a novas energias, geração de energia, biofármacos e produtos médicos e implementos agrícolas.

Neste guarda-chuva de manufatura tecnológica está uma política de conteúdo nacional – e de campeões nacionais – que não agrada a muitos. O temor é de que os produtos chineses possam por meio de incentivos governamentais entrar com força em setores intensivos em tecnologia, o que hoje não é a tônica, e que, para alcançar tal objetivo, a China esteja forçando justamente a transferência de tecnologia por parte de parceiros estrangeiros.

Nesta semana, no Fórum de Boao, um mecanismo inaugurado pela China em 2001 e que reúne anualmente as principais economias asiáticas – além do setor privado –, mas não restrito apenas a convidados da região, o presidente Xi Jinping afirmou que fortalecerá a proteção dos direitos de propriedade intelectual. Não citou as disputas com os EUA, mas era claramente uma resposta às ações norte-americanas, afirmando que a China encoraja intercâmbio tecnológico e cooperação entre empresas locais e do exterior sem impor transferência de tecnologia.

Fato é que, antes mesmo de a China qualificar sua manufatura e poder provocar novos arranjos no comércio internacional, o déficit dos EUA ante a China já é preocupação central para Trump, anunciada ainda durante a campanha eleitoral

Na mesma ocasião, Xi anunciou que serão reduzidas as tarifas sobre a importação de veículos – e isso beneficiaria empresas norte-americanas como a Tesla –, além de para outros produtos. Fato é que, antes mesmo de a China qualificar sua manufatura e poder provocar novos arranjos no comércio internacional, o déficit dos EUA ante a China já é preocupação central para Trump, anunciada ainda durante a campanha eleitoral. O presidente norte-americano afirma que se trata de US$ 500 bilhões, embora a China sustente que esteja na casa dos US$ 275 bilhões.

Enquanto a disputa parece estar longe de ser resolvida, o Brasil busca entender como pode eventualmente se beneficiar. Os resultados positivos estão, em geral, no campo das exportações de commodities – o que nem de perto significaria um incremento na pauta de exportações brasileiras à China, demanda já antiga de governos e empresários brasileiros, mas que parece esbarrar na competitividade dos produtos de maior valor agregado ou intensivos em tecnologia no Brasil.

Se tecnologia e inovação parecem estar no centro da disputa e justamente as deficiências brasileiras no setor nos impedem de avançarmos em outros campos, parece que o recado final desta disputa iniciada entre Washington e Beijing é a centralidade deste terreno para as economias que pretendem se firmar como protagonistas globais.

* Jornalista, viveu em Pequim de 2007 a 2013, para onde viaja com regularidade. Escreve para a agência de notícias chinesa Xinhua e para a plataforma online XinhuaNet. Autora do guia “China: O Melhor de Pequim e Xangai”.


Janaína Silveira

Jornalista, viveu em Pequim de 2007 a 2013, para onde viaja com regularidade. Escreve para a agência de notícias chinesa Xinhua e para a plataforma online XinhuaNet. Autora do guia “China: O Melhor de Pequim e Xangai”.