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Crise afunda a indústria e provoca corte de 543,9 mil metalúrgicos

A combinação de crise econômica e política provocou um colapso sem precedentes na história da indústria nacional. Com demissões em massa, a categoria metalúrgica encolheu 22% entre 2013 e 2017.


POR André Cintra

Publicado em 25 de julho de 2017

Economista Rodolfo Viana, do Dieese, fala durante a 1º Reunião de Direção Plena da Fitmetal.

Foto de Fitmetal

A combinação de crise econômica e política provocou um colapso sem precedentes na história da indústria nacional. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o problema já não se resume à mera queda da produção industrial, nem tampouco à menor participação do setor no PIB brasileiro (a chamada “desindustrialização”).

“O que vemos agora é uma enorme destruição de capacidade produtiva e o desmantelamento dos elos restantes da nossa cadeia de produção industrial. A questão é de perda de participação com queda também na produção e emprego industrial – um quadro absolutamente adverso”, afirma o economista Rodolfo Viana, do Dieese, em entrevista ao Portal da FITMETAL.

Como a indústria de transformação se mostrou ainda mais vulnerável à crise e demitiu em massa, a categoria metalúrgica encolheu 22% entre 2013 e 2017. “Isso significa mais de 543,9 mil empregos perdidos em três anos e meio”, resume Viana – que, neste mês, fez uma exposição especial para a diretoria da FITMETAL sobre “Conjuntura Econômica e Indicadores para a Campanha Salarial – 2º Semestre”.

Confira abaixo a entrevista.

FITMETAL: Passados 14 meses do governo ilegítimo de Michel Temer, como está a economia do Brasil? Há sinais concretos de estabilidade e retomada?
Rodolfo Viana: A economia brasileira segue com seríssimos problemas a serem resolvidos. Do ponto de vista dos indicadores macroeconômicos, o que se observa são melhoras pontuais, que não têm se materializado em uma trajetória clara de retomada de crescimento. É o caso da produção de veículos automotores. Outros casos, apesar de serem de certa maneira uma boa notícia, como o forte recuo da inflação e o saldo positivo da balança comercial, são, na verdade, muito mais produtos da recessão econômica.

FITMETAL: Como o Dieese avalia os impactos da crise política e econômica na indústria nacional?
RV: O setor industrial, sem dúvida, é um dos mais afetados com toda essa crise política e econômica que tem se abatido sobre o País. É um problema que começa no campo político e encontra uma economia fragilizada. Isso tem levado a indústria nacional para uma das suas maiores crises desde os anos 1980.

A situação de desindustrialização verificada agora tende a se agravar. Antes, a indústria crescia, mas perdia participação relativa para os demais setores da economia que cresciam mais. Então, de certa forma, o problema era bem menor – todos cresciam, mas a indústria, ao crescer menos, perdia sua participação na geração de riqueza nacional frente aos demais setores.

O que vemos agora é uma enorme destruição de capacidade produtiva e o desmantelamento dos elos restantes da nossa cadeia de produção industrial. A questão é de perda de participação com queda também na produção e emprego industrial – um quadro absolutamente adverso. O que sobrou da indústria nacional com o processo de abertura comercial e econômica dos anos 1990 – dada a primeira ofensiva neoliberal – corre o risco de não mais aguentar essa segunda grande ofensiva dos setores retrógrados da sociedade, pautados por interesses únicos do capital financeiro.

"O que vemos agora é uma enorme destruição de capacidade produtiva e o desmantelamento dos elos restantes da nossa cadeia de produção industrial. A questão é de perda de participação com queda também na produção e emprego industrial"

FITMETAL: Em quais setores as perdas serão mais duradouras ou até irreversíveis a curto e médio prazo?
RV: Setores produtores de bens de capital e de consumo duráveis tendem a sofrer as maiores consequências desse processo, uma vez que o nível de investimento apresenta quedas recordes, sem perspectiva de melhoras no curto e médio prazo. Outros segmentos da indústria, como a indústria naval e aquela ligada ao setor do petróleo, correm sério risco de ver sua retomada iniciada nos anos 2000 “naufragar” de uma vez por todas.

FITMETAL: Por quê?
RV: Justamente pelo total abandono de qualquer projeto nacional de desenvolvimento, na total falta de uma política industrial articulada para nacionalização de parte da produção industrial e proteção do mercado. É algo que foi largamente utilizado pelos países industrializados – mas que, no Brasil de hoje, não tem a menor perspectiva de ser discutido e posto em prática.

FITMETAL: Qual é o impacto desse processo para a categoria metalúrgica?
RV: O melhor ano para a categoria no Brasil foi 2013, que acabou com 2.446.272 metalúrgicos empregados no país. Desde então, as demissões têm superado as contratações. Foi o que ocorreu nos últimos três anos – e também nos seis primeiros meses de 2017. Com isso, a categoria hoje é composta por cerca de 1.902.342 trabalhadores. Isso significa mais de 543,9 mil empregos perdidos em três anos e meio!

FITMETAL: A produção de veículos tem crescido progressivamente. Mas essa alta é puxada, basicamente, pelas exportações – que passaram 48,6 mil unidades em maio de 2016 para 73,4 mil em maio de 2017 (um salto de 51,1%). Por que o mercado interno permanece estagnado?
RV: A questão do mercado interno não será revertida se não “estancar a sangria” do desemprego, em primeiro lugar, e destravar o crédito, em segundo lugar. O primeiro ponto é primordial e perpassa a questão do setor automobilístico. A geração de emprego precisa ser o norte de todo e qualquer governo. Apenas com geração de mais e melhores empregos poderemos retomar uma trajetória de desenvolvimento sustentável.

Outro ponto é que o trabalhador, ainda que empregado, ao olhar ao redor, percebe que diversas pessoas estão desempregadas. Ele pensará duas vezes antes de procurar fazer uma dívida para trocar ou adquirir um automóvel. A segunda questão é a do crédito. Com uma das maiores taxas de juros do mundo e um setor bancário monopolizado, o crédito, além de caro, tem se tornado escasso, travando a compra de novos veículos – inclusive por quem gostaria de adquirir o bem.

FITMETAL: Quais os riscos de uma produção tão dependente da demanda externa?
RV: Um grande problema é que essa produção apenas se sustenta se o mercado externo estiver demandando. Para isso, além de fatores conjunturais dos parceiros comerciais, temos a questão da taxa de câmbio, que depois de uma considerável desvalorização em anos recentes, o que ajudou para exportação, tem começado um movimento de valorização, o que poderá dificultar a manutenção das exportações, uma vez que com o câmbio valorizado o produto nacional fica mais caro no exterior.

Rodolfo Viana, do Dieese, fala durante a 1º Reunião de Direção Plena da Fitmetal.

Foto de Fitmetal