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ABC Paulista, um símbolo da crise na indústria brasileira

Região vive um processo de desindustrialização e perda de empregos. Com a crise, o ritmo de cortes acelerou : foram quase 28 mil demissões do segundo semestre de 2014 até agora


POR Redação, com informações do UOL

Publicado em 08 de setembro de 2017

Foto de UOL

Fábricas em processo de fechamento, 38 mil empregos perdidos em seis anos e uma crise prolongada. Este é o cenário de um dos mais importantes polos industriais do País, o ABC Paulista, na região metropolitana de São Paulo (SP). A situação foi descrita nesta sexta-feira (8/9) pelo repórter Aiuri Rebello, em matéria no “Portal UOL”, com o título “Crise deixa rastro de fábricas fechadas, desemprego e desalento no ABC”.

O relato tem como ponto de partida o drama dos trabalhadores da Panex, fábrica de panelas e utilidades domésticas que deve encerrar suas atividades em São Bernardo do Campo em dezembro, depois de 39 anos. Segundo o texto, a jornada de trabalho ali tem sido “arrastada e melancólica nas linhas de montagem”.

Foi em fevereiro que o grupo francês Seb, dono da Panex desde 2005, anunciou que todas as atividades dessa fábrica histórica seriam transferidas para a unidade de Itatiaia (RJ) – a desativação começou em julho. O número de empregados na Panex do ABC já havia caído de mil para 300. No mesmo mês, segundo pesquisa do Seade/Dieese, o ABC tinha cerca de 250 mil desempregados.

Fechar fábricas e concentrar a produção em um número reduzido de unidades é uma receita comum dos grandes grupos industriais para manter as margens de lucro em alta. Em 2016, a própria Panex/Seb já havia desativado sua fábrica na Mooca, na zona leste de São Paulo, onde eram produzidos os eletrodomésticos havia 70 anos.

A matéria do UOL aponta que o ABC vive “um processo de desindustrialização e perda de empregos que se desenvolve ao longo de décadas –por motivos variados– e que tem sido acelerado com a crise econômica”. Uma das evidências é o número de postos de trabalho calculado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC: dos 111 mil operários ativos na base em 2011, 10 mil perderam seus empregos até 2014. Do segundo semestre de 2014 até agora, o ritmo de cortes acelerou: foram quase 28 mil demissões.

Wagner Santana, presidente do sindicato, diz haver “dois tipos de desemprego” no ABC. “Um é o desemprego conjuntural, que tem a ver com a crise econômica e volta conforme a economia aquece novamente. O outro é um desemprego mais estrutural, do fechamento da fábrica, da modernização das linhas de montagem, da transferência das empresas para outros lugares.”

Segundo Wagner, “a vocação do ABC ainda é industrial, é o que move a economia por aqui. Porém, ainda não começamos a desenvolver um plano a longo prazo. Se não começarmos logo, o tipo de indústria que temos aqui não vai sobreviver – e veremos cada vez o ABC perdendo a vida própria e virando cidades-dormitórios”.

Na Avenida Álvaro Guimarães, em São Bernardo, a Panex está prestes a fechar, a P&G e uma fábrica da Rolls-Royce foram desativadas, enquanto a unidade da Karmann-Ghia foi à falência. Nos arredores, o comércio definha sem fregueses e também fecha as portas

Os números da indústria automotiva, principal geradora de empregos na região, dão sinais de recuperação, mas ainda seguem baixos. De acordo com a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), a produção aumentou em julho pelo segundo mês consecutivo, depois de sucessivas quedas nos últimos anos. Para executivos do setor, se a tendência de recuperação continuar, o Brasil pode produzir até cerca de 2 milhões de veículos até o final do ano. Hoje a previsão oficial está em pouco mais de 1 milhão de unidades. Em 2014, foram cerca de 3,5 milhões.

Muitas empresas recorreram aos "lay-offs" (quando a montadora deixa os trabalhadores em casa com salários reduzidos para não demitir). Um estímulo à prática veio do PPE (Programa de Proteção ao Emprego), criado no governo Dilma Rousseff. Quando montadoras em “lay-off” aderem ao PPE, o governo federal paga parte do salário do trabalhador, em troca de sua estabilidade no emprego.

"A empresa que tem mais funcionários parados hoje é a Volkswagen, com uns mil em 'lay-off', mas está retomando aos poucos", diz Wagner. “Mas ainda é muito cedo para comemorar. Chegamos ao fundo do poço e nele estamos, ainda sem sinal de sair. A Mercedes-Benz tem aproveitado o momento para fazer uma grande reestruturação nos últimos anos e vem diminuindo o quadro de funcionários”, agrega o sindicalista.

Em 2016, a Mercedes demitiu entre 300 e 400 funcionários. Em agosto passado, a Ford dispensou 364. A Volks anunciou investimento de R$ 2,6 bilhões na fábrica de São Bernardo – o que não significa mais empregos, mas, sim, “modernização”, segundo presidente do sindicato. “O que vai acontecer é que vão parar de demitir, pelo menos por um tempo", diz ele. “De todos esses empregos que sumiram de 2014 para cá, ainda não sabemos quantos voltam e quantos foram embora de vez. Precisamos esperar a atividade econômica voltar ao normal para aí ver o que foi perdido.”

A Avenida Álvaro Guimarães, onde fica a Panex, é um símbolo da desindustrialização no ABC. Do outro lado da rua, está a fábrica de peças e manutenção de motores de avião da Rolls-Royce, fechada no início do ano. Quilômetros à frente, há a fábrica da Karmann-Ghia, que foi à falência no final de 2016. Ali perto, instalações da P&G (do ramo de limpeza e higiene pessoal) estão vazias desde que a matriz norte-americana encerrou as operações no local. Em volta desses locais enormes e desertos, o comércio definha sem fregueses e também fecha as portas aos poucos.


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