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Montadoras devem investir R$ 15 bi no Brasil, mas descartam contratações

Investimentos representam uma reversão nos ânimos do setor automotivo brasileiro, que sofreu um duro baque na crise


POR Redação, com agências

Publicado em 10 de outubro de 2017

Modernização das linhas de produção costuma enxugar empregos ou, no mínimo, não levar a novas contratações

Foto de Divulgação

A alemã Mercedes-Benz anunciou nesta segunda-feira (9) que investirá R$ 2,4 bilhões em suas fábricas de caminhões e ônibus no Brasil. Não foi um movimento isolando. Desde março, oito montadoras, incluindo a Mercedes-Benz, comunicaram que vão trazer ao País quase R$ 15 bilhões até 2022.

Os investimentos representam uma reversão nos ânimos do setor automotivo brasileiro, que sofreu um duro baque na crise. Entre 2013 e 2016, houve queda 42% na produção de automóveis, comerciais leves, caminhões. Mais de 35 mil postos de trabalho foram fechados.

O setor saiu de um patamar de 3,7 milhões de unidades produzidas em 2013 para 2,2 milhões em 2016. As perspectivas mais positivas são de uma recuperação tênue em 2017, com a produção indo a 2,7 milhões de unidades, segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Os planos

A previsão da Mercedes é fazer os investimentos entre 2018 a 2022 para modernizar as fábricas de São Bernardo do Campo (SP) e Juiz de Fora (MG), além de desenvolver novas linhas de produtos e tecnologias. Uma das prioridades é mirar nas futuras mudanças nas normas de emissões de poluentes e na necessidade de aumentar a conectividade dos veículos.

A última vez em que a empresa anunciou iniciativa semelhante foi em 2010, quando destinou cerca de R$ 2,5 bilhões para um período de cinco anos. Philipp Schiemer, presidente da Mercedes no Brasil e na América Latina, vê fragilidades na recuperação, mas projeta um cenário positivo, com vendas puxadas pelo agronegócio e pela mineração no segmento de caminhões.

Pablo Di Si, novo presidente da Volkswagen no Brasil, prevê que as vendas da Volks vão crescer 40% no País nos próximos quatro anos no mercado de carros e comerciais leves. Já Rogelio Golfarb, vice-presidente da Anfavea, diz que “o período de contração acabou e entramos em tempos de recuperação”. De todo modo, ele acrescenta que “ainda é necessário cautela quanto à magnitude deste crescimento”.

Mais exportações

A cautela se explica pelo tamanho da queda, que foi ainda mais dramática no mercado interno, onde as vendas saíram de um apogeu de 3,8 milhões de unidades em 2012 para apenas 2 milhões em 2016 – uma redução de 46% em quatro anos. A previsão para 2017 é de 2,2 milhões de unidades vendidas no país.

O socorro veio das vendas internacionais que, depois de atingir um pico de 724 mil unidades exportadas em 2005, desceu 334 mil unidades em 2014, mas reagiu quando o câmbio ficou favorável. O esforço de exportador tem se mostrado frutífero. O setor espera fechar 2017 com 745 mil unidades vendidas para o mercado externo – o que seria o melhor ano na história das exportações dessa área.

Rogelio Golfarb, vice-presidente da Anfavea, diz que “o período de contração acabou e entramos em tempos de recuperação”. De todo modo, ele acrescenta que “ainda é necessário cautela quanto à magnitude deste crescimento”.

No caso da Volks, líder em exportações no país, o aumento da demanda argentina também deverá garantir a alta das vendas internacionais, que foi de 62% no acumulado deste ano até setembro, segundo o novo presidente Di Si. "Precisamos melhorar a competitividade para exportar também a novos mercados emergentes, como Turquia, Egito, Chile", afirma Di Si. A empresa prevê 20 lançamentos até 2020 no Brasil.

Modernização sem desemprego?

Os investimentos previstos no Brasil não focam uma atividade específica. A Volks quer melhorar a produção e a o suporte aos fornecedores, modernizar a distribuição e iniciar a importação de veículos elétricos para o Brasil em 2018. A Scania anunciou R$ 2,6 bilhões em desenvolvimento de produtos e modernização da fábrica, enquanto a Toyota direcionou R$ 1 bilhão para um novo modelo na linha de passeio. GM, Volvo, Renault e MAN também soltaram planos de investimentos.

A tônica geral dos desembolsos está na modernização das linhas de produção, o que costuma enxugar empregos ou, no mínimo, não levar a novas contratações. Na Mercedes, a tecnologia que a rodada atual de investimento vai proporcionar não deve desencadear demissões, segundo Schiemer. "As eficiências que vamos trazer agora vão ser compensadas pela retomada do mercado. Não prevemos demissões", diz.

De acordo com Schiemer, só serão feitas contratações “se houver necessidade”. O nível de empregos no setor saiu de 156,9 mil em 2013 para 121,2 mil em 2016. Mas os números da Anfavea apontam uma retomada, com 126,3 mil vagas em setembro.

Caminhões

A Volkswagen Caminhões e Ônibus anunciou que decidiu cancelar as férias coletivas de funcionários da sua fábrica em Resende, no Rio de Janeiro, pela primeira vez em seis anos. De acordo com o presidente da companhia para a América Latina, Roberto Cortes, a decisão foi motivada pelos sinais de retomada na demanda por veículos pesados e pelo lançamento da família de modelos leves urbanos.

A fábrica emprega 3.300 funcionários em um turno e vem elevando a produção desde o início do ano. A empresa – que disputa a liderança do mercado brasileiro de caminhões e ônibus com a Mercedes-Benz – está trabalhando cinco dias por semana e em três sábados por mês, ante apenas quatro dias trabalhados no começo de 2017.

Desde 2013, o mercado brasileiro de caminhões encolheu 70%. Agora, o setor começa a sair da crise, puxado principalmente pelo segmento de extrapesados, mais usado no agronegócio. Desde janeiro, a média diária de emplacamentos de caminhões no Brasil cresceu 70%, passando de 126 para 213 unidades.