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"Sem indústria não há desenvolvimento", afirma secretário-geral da Fitmetal

Wallace Paz falou em entrevista sobre o processo de desaceleração do setor industrial, do avanço do desemprego e da ausência de perspectiva para os mais jovens que acabaram de ingressar no mercado de trabalho.


POR Portal CTB

Publicado em 18 de outubro de 2017

Foto de Murilo Tomaz

"Sem indústria não há desenvolvimento, esse é o lema da nossa luta cotidiana", afirmou o secretário-geral da Fitmetal em entrevista em que avalia os desafios atuais frente à crise política e econômica, o golpe de 2016, a ofensiva do Capital contra o Trabalho e o papel da resistência da classe trabalhadora na atual etapa da luta.

Na oportunidade, o dirigente também falou sobre o processo de desaceleração do setor industrial, do avanço do desemprego e da ausência de perspectiva para os mais jovens que acabaram de ingressar no mercado de trabalho. "A atual crise chega ao Brasil depois de um grande ciclo de avanços, em especial durante os anos em que Lula foi o presidente da República. Chegamos a ter níveis de pleno emprego, as campanhas salariais de praticamente todas as categorias sempre obtinham aumento real e havia uma sensação de prosperidade que atingia a todas as classes sociais e faixas etárias. A crise trouxe um rebaixamento muito grande, algo inédito em especial para os jovens que ingressaram no mercado de trabalho neste século".

Para o secretário-geral da Fitmetal o "Brasil precisa urgentemente de um novo Projeto Nacional que tenha o desenvolvimento como premissa. Não podemos continuar vendendo minério de ferro a preços ínfimos e importando alumínio da Alemanha ou da China a preços altíssimos. Temos exemplos de nações que fizeram essa aposta e obtiveram grandes resultados para sua população".

Acompanhe a íntegra da entrevista:

O Brasil vive um momento complexo tanto do ponto de vista político como econômico, um setor produtivo como muitos setores sucateados, com desindustrialização e avanço do desemprego. Como você avalia esse cenário?

Wallace Paz: Esse cenário terrível é fruto de uma série de políticas e ações equivocadas. A atual crise chega ao Brasil depois de um grande ciclo de avanços, em especial durante os anos em que Lula foi o presidente da República. Chegamos a ter níveis de pleno emprego, as campanhas salariais de praticamente todas as categorias sempre obtinham aumento real e havia uma sensação de prosperidade que atingia a todas as classes sociais e faixas etárias. A crise trouxe um rebaixamento muito grande, algo inédito em especial para os jovens que ingressaram no mercado de trabalho neste século.

Não é possível apontar para um único culpado, mas creio que devemos fazer um exercício para tentar compreender a complexidade da atual conjuntura. O mundo ainda vive uma grande crise econômica, que demorou para atingir o Brasil, mas que quando aqui chegou nos afetou diretamente. As empresas de vários setores aproveitaram esse cenário para impor uma série de derrotas à classe trabalhadora, como perdas de direitos, rebaixamento de salários e demissões sem quaisquer critérios.

Não podemos, obviamente, deixar de mencionar também o desserviço de todos os setores que se envolveram diretamente no Golpe de 2016, que tirou Dilma Rousseff da Presidência. A Operação Lava Jato teve (e ainda tem) um papel terrível para enfraquecer nossa indústria. É impossível não associar diretamente o que houve com a indústria naval e offshore ao interesse estrangeiro em relação ao pré-sal. Uma vez aplicado o Golpe contra a democracia, o governo ilegítimo de Michel Temer tem feito o papel sujo de facilitar o acesso das multinacionais às nossas riquezas, em detrimento dos interesses nacionais e da geração de mais empregos para a nossa classe trabalhadora.

A Federação lançou um manifesto "Sem indústria não há desenvolvimento" indicando caminhos para a construção de um horizonte com crescimento, geração de emprego e valorização do trabalho, pode comentar essa proposta?

WP: Esse é um lema para a nossa luta cotidiana. Todas as nações desenvolvidas chegaram a um patamar mais elevado por meio de um projeto nacional, que teve como pilares a qualificação de seus profissionais, investimentos em Ciência e Tecnologia, a defesa de seus interesses nacionais e a valorização do trabalho. Os empregos criados no setor industrial possuem um valor agregado muito superior aos que os setores de Serviços e da Agricultura geram. O Brasil precisa urgentemente de um novo Projeto Nacional que tenha o desenvolvimento como premissa. Não podemos continuar vendendo minério de ferro a preços ínfimos e importando alumínio da Alemanha ou da China a preços altíssimos. Temos exemplos de nações que fizeram essa aposta e obtiveram grandes resultados para sua população.

A Fitmetal compõe o movimento Brasil Metalúrgico e está viajando o Brasil com um Ciclo de Debates, pode fazer um balanço da atuação da entidade nestas duas frentes?

WP: Fitmetal se colocou ao lado de outras entidades para desenvolver essas duas grandes iniciativas. Ainda estamos em meio a ambos os processos, mas já podemos fazer uma análise inicial de sua importância. O Brasil Metalúrgico é a iniciativa prática da nossa luta, na qual estamos procurando organizar um amplo movimento não apenas em defesa dos interesses da nossa categoria, mas da indústria nacional como um todo.

Já o Ciclo de Debates é a nossa iniciativa teórica para aprofundar nossa compreensão sobre esse tema da desindustrialização, que nos afeta de maneira tão impactante. Já organizamos dois eventos (em São Paulo e Sergipe) e, até o final do ano, ainda iremos levar essa discussão para o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Amazonas e Pernambuco – estados nos quais temos importantes bases organizadas. Ao final desse processo, nossa intenção é produzirmos uma revista especial ou um livreto com o conteúdo dessas discussões.

A Reforma Trabalhista que entra em vigor no próximo dia 11 de novembro além de retirar direitos consagrados tenta fragilizar o movimento sindical brasileiro. Muitos falam em reinvenção e reconstrução do movimento sindical, como a Fitmetal encara esse ataque direto à classe trabalhadora?

WP: É sem dúvida um ataque do capital à organização da classe trabalhadora. Por seus vários aspectos negativos, a reforma sem dúvida nos afetará, mas de forma alguma impedirá que continuemos a fazer nossa luta. Diria até que é diante desse tipo de dificuldade que a classe trabalhadora e o movimento sindical se fortalecem e se agigantam. Nossa militância precisará de um certo período para compreender com mais exatidão esses retrocessos, mas quem realmente tem trabalho junto à base saberá como superar essa adversidade.