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Com Temer, indústria afunda e volta aos patamares dos anos 1950

Apesar do crescimento em 2017, setor continua a perder espaço na economia. Dados de janeiro de 2018 também são negativos.


POR Redação, com agências

Publicado em 12 de março de 2018

Foto de Pxhere

O desastroso governo de Michel Temer tem acentuado ainda mais a desindustrialização da economia brasileira - tendência iniciada na década de 1980. Pior: a regressão industrial pós-golpe vem acompanhada por um processo de desnacionalização de setores estratégicos – o que praticamente inviabiliza uma retomada desenvolvimentista do País.

É o que avaliam especialistas com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na semana passada. Os números apontam que a indústria de transformação até registrou um crescimento de 2,2% em 2017 – mas continuou a perder espaço na economia. Segundo o IBGE, a participação do segmento no Produto Interno Bruto (PIB) caiu para 11,8%, a menor desde os anos 1950. No início da década, esse percentual era de 15% e, nos anos 1980, chegou a superar a casa dos 20%.

Com a recessão que abalou o País por mais de dois anos, a indústria nacional registrou duas fortes retrações (-8,3% em 2015 e -6,4% em 2016). Mas a perda de participação do PIB, mais do que efeito da recessão, é um fenômeno estrutural. Economistas afirmam que o Brasil passa por um processo de desindustrialização precoce, com consequências nocivas à inovação e à produtividade.

Historicamente, países que se desenvolvem passam por processos de industrialização, enriquecem e, aos poucos, reduzem a participação do setor na economia. Só que o Brasil passou por esse processo cedo demais. Segundo dados do Banco Mundial, o peso da indústria brasileira no PIB, estimado em 11,8% de 2015, estava abaixo da média mundial, de 16,5%. Por diferenças metodológicas, os números diferem dos dados do IBGE, que, naquele ano, registrou 12,2%. Mas o indicador brasileiro também estava abaixo do estimado em países vizinhos, como México, Peru e Argentina.

Condições macroeconômicas e sistêmicas

Conforme estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a queda estrutural da participação da indústria na economia ocorreu mais rapidamente no país do que no resto do mundo. Entre 1975 e 1992, o peso do setor no PIB mundial diminuiu 25%, enquanto no Brasil recuou 38%. A entidade diz que o início do processo ocorreu quando o país tinha PIB per capita de US$ 11 mil – menos que o patamar de US$ 20 mil observado em países desenvolvidos que fizeram transição semelhante.

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), acrescenta que o país não tem características que justifiquem essa queda. “Nossa renda per capita não é de país desenvolvido. O Brasil está para trás na robotização, não tem um grande fenômeno de outsourcing (terceirização de processos da indústria para o exterior). Foram as condições macroeconômicas e sistêmicas que fizeram com que a indústria perdesse espaço, como câmbio desfavorável e custo de capital elevado.”

Há críticas, ainda, às formas de incentivo à indústria nos últimos anos, baseadas principalmente em incentivos fiscais e crédito subsidiado. A queda de participação da indústria na economia ocorreu mesmo durante os dez anos em que o país teve três versões de programas específicos do governo para estimular o setor. Em 2004, quando o governo Lula lançou a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), a indústria representava 17,8% do PIB. Em 2015, já no governo Dilma, quando foi apresentado o Plano Brasil Maior (PBM), o indicador havia recuado para 12%.

A gestão Temer fala em planejar estratégias, mas não reconhece a gravidade da crise. Tanto que, para o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Luiz Augusto Ferreira, “não há desindustrialização” no País. “O que tem de haver agora é um reacerto do espaço da indústria nacional”, diz o ingênuo Ferreira.

Historicamente, países que se desenvolvem passam por processos de industrialização, enriquecem e, aos poucos, reduzem a participação do setor na economia. Só que o Brasil passou por esse processo cedo demais.

A ABDI, ligada ao governo federal e responsável por gerir políticas industriais, diz ter como meta elevar a participação do setor no PIB para até 15% nos próximos cinco anos. As ações serão voltadas ao desenvolvimento da indústria 4.0, que incorpora novas tecnologias, como a internet das coisas. “A ABDI está preparando para o próximo governo duas ou três novas políticas industriais”, afirma Ferreira.

Nova queda

Mesmo com o suposto otimismo, as últimas notícias não são positivas. Na passagem de dezembro de 2017 para janeiro de 2018, já contabilizado o ajuste sazonal, houve queda de 2,4% da produção industrial. O setor operava em janeiro 15,8% abaixo do pico de produção registrado em junho de 2013, conforme resultados da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física divulgados pelo IBGE. O resultado geral interrompeu quatro meses seguidos de crescimento e foi o pior desde fevereiro de 2016, quando houve retração de 2,5%.

Segundo o IBGE, a queda atingiu as quatro grandes categorias da indústria. Mas a principal influência negativa partiu da produção de veículos automotores, que recuou 7,6% de dezembro para janeiro. Em dezembro, a indústria automotiva havia crescido 9,1% na comparação com o mês anterior. “A indústria automobilística tem um forte efeito de encadeamento e afeta diversos ramos que produzem componentes utilizados nos automóveis”, apontou o gerente da pesquisa, André Macedo.

Das grandes categorias econômicas, bens de consumo duráveis (-7,1%) mostrou a queda mais acentuada e eliminou parte da expansão de 9,8% acumulada nos dois últimos meses de 2017. Foi a pior taxa desde março de 2017 (-7,5%). Também tiveram recuo os segmentos de bens intermediários (-2,4%) e de bens de capital (-0,3%). A única taxa positiva em janeiro foi a do setor produtor de bens de consumo semi e não duráveis, que avançou apenas 0,5%.

Outras contribuições negativas vieram de metalurgia (-4,1%), de produtos de borracha e de material plástico (-5,4%), de produtos alimentícios (-1,1%), de perfumaria, sabões, produtos de limpeza e de higiene pessoal (-2,4%), de outros equipamentos de transporte (-12,1%), de produtos de metal (-4,9%), de produtos diversos (-11,2%), de celulose, papel e produtos de papel (-3,3%) e de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-1,6%). Dos 24 ramos da indústria pesquisados pelo IBGE, apenas cinco tiveram crescimento de dezembro para janeiro – caso dos produtos farmoquímicos e farmacêuticos (21,0%), de indústrias extrativas (2,2%) e bebidas (5,0%).

Resultados regionais

Do ponto de vista regional, oito dos 14 locais pesquisados tiveram taxas negativas. As principais quedas foram no Paraná (-4,5%), que reverteu o avanço de 1,5% do mês anterior; Rio Grande do Sul (-3,5%), que devolveu parte da expansão de 10,1% em novembro e dezembro de 2017; e São Paulo (-3,3%), que cresceu 4,8% nos últimos dois meses do ano passado.

Ceará (-2,2%), Rio de Janeiro (-2,1%), Região Nordeste (-1,1%), Espírito Santo (-0,9%) e Santa Catarina (-0,1%) foram os outros locais com índices negativos em janeiro. Os resultados positivos da indústria foram no Pará (7,3%), que caiu 1,5% em dezembro de 2017; Amazonas (7,1%), que acumulou avanço de 20,4% em dois meses consecutivos; Goiás (2,4%); Pernambuco (1,5%); Minas Gerais (1,4%) e Bahia (0,9%).


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