Notícias

Recessão e desemprego levam trabalhadores da indústria à informalidade


POR Agências

Publicado em 05 de julho de 2019


A recessão econômica não terminou para a parcela mais pobre dos trabalhadores brasileiros – os 50% de menores rendimentos, que somam 68,5 milhões de pessoas. Essa é a conclusão de um estudo realizado pelos pesquisadores Rogério Barbosa (USP/Columbia) e Marcelo Medeiros (Princeton), com base nos dados de emprego e renda do IBGE. O trabalhador da indústria foi um dos mais atingidos pela crise.

De acordo com o levantamento, a parcela 50% mais pobre dos trabalhadores se apropriava de 5,5% da massa real de rendimentos dos trabalhos em 2014. Essa fração recuou paulatinamente nos últimos anos, até chegar em 3,1% no primeiro trimestre de 2017. Desde então, o indicador, que é ajustado sazonalmente, vem mostrando estagnação.

“Para os trabalhadores mais pobres, a recessão ainda não terminou, sua renda não se recupera, mesmo quando descontamos os efeitos do desemprego”, afirma Barbosa, que atua como pesquisador no Centro de Estudos da Metrópole (USP) e na Universidade de Columbia.

Esses trabalhadores têm características em comum. São geralmente menos qualificados e perderam empregos formais durante a crise, em setores como construção civil e indústria de transformação. As demissões foram mais intensas até 2017 e, desde então, esses trabalhadores vêm se reinserindo em ocupações informais em setores como comércio e serviços pessoais.

“Em geral, o movimento em direção ao emprego informal é negativo, porque são postos sem benefícios, menores salários. Desta vez, porém, o que vimos foram trabalhadores que estavam sem nenhum rendimento do trabalho buscando a informalidade como válvula de escape. Então, a informalidade, na verdade, contribuiu para amortecer o desemprego”, diz o especialista.

Setores “blindados”

O movimento é diferente no topo da pirâmide. O grupo dos 10% mais ricos da população recebia 49% da massa de rendimento em meados de 2014 – parcela em trajetória de redução até então. No início deste ano, porém, a fração apropriada havia crescido para 52%.

Ou seja, o topo chega ao pós-crise não apenas recuperando suas perdas, mas obtendo ganhos, concluem os pesquisadores. “A pouca recuperação que ocorre beneficia os trabalhadores bem posicionados, formalizados e empregados em determinados setores”, diz Barbosa.

O topo da renda não é exatamente formado de milionários. São 13,7 milhões de trabalhadores. Em geral, pessoas mais escolarizadas, consideradas de classe média, com empregos de carteira de trabalho assinada e renda média de R$ 8 mil. Boa parte atua em setores mais “blindados” da crise econômica, como educação, saúde, administração pública e serviços financeiros.

Segundo Barbosa, esses setores “blindados” da crise têm em comum o maior direcionamento de recursos públicos, que seguiram crescendo mesmo com a crise fiscal. São também áreas com gastos priorizados pelas famílias, que evitam tirar filhos das escolas. É uma evidência de que as forças de mercado não foram capazes de promover a dinâmica necessária para a recuperação do emprego.

O estudo mostra que até o fim de 2014 a tendência no país foi basicamente de queda da desigualdade da renda do trabalho. Essa tendência se interrompe a partir de 2015, tendo como principal responsável o desemprego. Em 2016, ano do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, o desalento de trabalhadores (pessoas que desistem de procurar emprego, embora estejam disponíveis para trabalhar) emerge com intensidade e reforça a desigualdade.

Sob a CLT

Com a redução dos postos de trabalho sob o regime da CLT, os benefícios e outros direitos – como o 13º salário, adicionais de férias, etc. – recebidos por esses trabalhadores se tornaram mais escassos e desigualmente distribuídos. Este teria sido, inclusive, um fator de aumento da desigualdade entre trabalhadores brasileiros nos últimos anos, mostra a pesquisa.

“Em 2017 e 2018, não são, fundamentalmente, os salários mensais regulares que estão aumentando a desigualdade, e sim os rendimentos eventuais, que oscilam fortemente ao longo do tempo. Isto é ruim, à medida que não assegura estabilidade no consumo, com potenciais implicações macroeconômicas”, diz Marcelo Medeiros.

Medeiros acrescenta que o desemprego também é “desigualmente distribuído”. “É menor entre pessoas com escolaridade elevada. Com isso, uma redução do desemprego tenderia a melhorar as pessoas mais pobres, enquanto as melhorias nos rendimentos beneficiam as mais ricas que conseguiram permanecer em seus postos de trabalho. Em certa medida, é isso o que está ocorrendo”, acrescentou.

Para Barbosa, a parcela mais pobre dos trabalhadores começará a sair da recessão a partir do momento em que houver uma aceleração do crescimento econômico combinada com a geração de empregos formais. “Desigualdade e crescimento têm relação de complementaridade, e não substituição, diz ele.

No estudo, o pesquisador recorreu ao rendimento efetivamente recebido pelos trabalhadores, que é acompanhado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. O dado não inclui outras fontes de renda para além do trabalho, como o Bolsa Família, o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e as aposentadorias.

Com informações do Valor Econômico


Últimas Inclusões