Opinião

A “reindustrialização forçada” é um caminho para o Brasil?

O setor industrial, que já chegou a representar cerca de 25% do Produto Interno Bruto, deve encerrar 2017 com menos de 10% de participação nas riquezas do país.


POR Fernando Damasceno

Publicado em 17 de outubro de 2017

Foto de Reprodução

O ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes vem percorrendo o país como pré-candidato à Presidência da República. Em seu discurso, tem emergido um conceito importante para a classe trabalhadora: a necessidade de o Brasil adotar um urgente processo de reindustrialização forçada.

A expressão remete à política da União Soviética para enfrentar a Alemanha na 2º Guerra Mundial. Diante da ofensiva nazista, Stalin deslocou para o leste grande parte do potencial industrial bélico do país, alvo das primeiras investidas de Hitler em meados de 1941. O movimento estratégico foi fundamental para a resistência e posterior reação do Exército Vermelho no conflito, permitindo que seu arsenal militar fosse minimamente protegido e continuasse a ser produzido em larga escala para enfrentar os alemães.

A tragédia brasileira contemporânea tem dimensões e causas obviamente distintas daquelas enfrentadas pelos soviéticos, mas a crise econômica atual exige do próximo governo uma iniciativa ousada, estratégica e veloz, em nome da retomada do crescimento e do desenvolvimento da nação.

Em meio à balbúrdia na qual se transformou o debate político no Brasil, no qual figuras rasas como Jair Bolsonaro e João Doria são capazes de atrair holofotes diários, propostas dessa natureza não podem passar ao largo de uma discussão mais aprofundada. Ciro Gomes tem um histórico político que não o coloca automaticamente no campo da esquerda, mas há poucas vozes lúcidas neste momento que estejam de fato apresentando saídas positivas para a classe trabalhadora.

Em resumo, o presidenciável do PDT propõe um pacto entre governo (União e as 27 unidades federativas) com os setores produtivos, a Academia e a classe trabalhadora. A referida “reindustrialização forçada” envolveria, a princípio, quatro setores da economia:

- Indústria do agronegócio: visto que o setor importa a maior parte de seu maquinário, bem como dos fertilizantes usados pelo campo adentro.

- Indústria farmacêutica: mais de 70% dos remédios consumidos no Brasil são importados. Grande parte deles poderia ser fabricada no país por meio de engenharia reversa, pois envolvem produtos com patentes já vencidas.

- Indústria da defesa: necessidade de modernizar a defesa das fronteiras brasileiras e garantir sua soberania. Atualmente, grande parte dos gastos nessa área é importada de outras nações.

À classe trabalhadora, cabe defender toda e qualquer proposta que tenha a valorização do trabalho e a criação de empregos qualificados como mote.

- Indústria de óleo, gás e bioenergia: necessidade de alterar a política de exportação de petróleo bruto somada à importação de produtos refinados. O país tem tecnologia para fabricar localmente tais materiais. 

Reação rentista

Ciro Gomes tem utilizado um slogan que não é novo: “Unir os que trabalham àqueles que produzem”. Em 2012, o movimento “Grito de Alerta” procurou fazer essa articulação em diversas manifestações pelo Brasil afora. Dilma Rousseff procurou atender a algumas das proposições apresentadas pelos trabalhadores e empresários, como por exemplo a redução da taxa de juros e a queda do preço da energia. Como todos sabemos, aqueles que vivem do rentismo não aceitaram calados tais iniciativas e trataram de agir para combatê-las. O golpe de 2016 é, em boa parte, fruto dessa reação. Parte dos empresários e dos sindicalistas optaram por mudar de lado e não hesitaram em se posicionar ao lado do famoso pato amarelo da FIESP.

O pré-candidato do PDT certamente sabe que parte do empresariado industrial nacional adotou o rentismo como forma de conduzir seus negócios. Sua análise e suas propostas fazem todo sentido ao apontar a reindustrialização como o caminho necessário para o Brasil se desenvolver, mas a chave da implementação de um novo projeto de desenvolvimento precisará de uma ampla construção política, capaz de aglutinar setores que hoje estão calados, seja por atordoamento ou por não saber qual rumo seguir.

À classe trabalhadora, cabe defender toda e qualquer proposta que tenha a valorização do trabalho e a criação de empregos qualificados como mote. O setor industrial, que já chegou a representar cerca de 25% do Produto Interno Bruto, deve encerrar 2017 com menos de 10% de participação nas riquezas do país. Tal cenário basta para que a ideia da reindustrialização forçada seja aprofundada e debatida com todos os setores envolvidos. É por meio da política que o Brasil poderá sair da presente crise, sem permitir que aventureiros ou irresponsáveis conduzam o país a cenários ainda mais incertos e sombrios.


Fernando Damasceno

Fernando Damasceno, jornalista e historiador, é assessor da Fitmetal.


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