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Industrialização e crescimento inclusivo em meio à robotização

Os resultados da mudança tecnológica em curso, a partir da robotização e de outras tecnologias que conformam a revolução digital, não constituem um processo autônomo, mas condicionado pelos incentivos e políticas econômicas


POR IEDI

Publicado em 12 de março de 2018

Ainda são muitas as dúvidas acerca dos impactos da revolução digital, particularmente da robotização, sobre as formas de organização industrial, o crescimento econômico inclusivo, os ganhos de produtividade, a geração, destruição ou transformação de empregos, entre outros temas. Apontar possíveis desdobramentos da robotização, parte integrante da revolução digital em curso, é tema do capítulo III, “Robots, industrialization and inclusive growth”, do “Trade and Development Report 2017”, da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), que será sintetizado nesta Análise Iedi.

A discussão realizada no referido capítulo tem como pano de fundo a preocupação com o desenvolvimento econômico, ao questionar se o maior uso de robôs reduziria a importância da indústria na estratégia de desenvolvimento. Este seria o caso se a crescente automação industrial baseada em robôs dificultasse a industrialização ou resultasse em substancial perda de empregos industriais. Insere-se tal questão em um contexto mais amplo, avaliando potenciais impactos – e alguns efeitos já observados – do uso dos robôs nas trajetórias de desenvolvimento dos países.

Sugere-se, no capítulo, que a robotização terá um efeito relativamente menor nos processos produtivos de economias em desenvolvimento, sobretudo as de mais baixa renda, onde a mecanização ainda permanece como a forma predominante de automação. Isso porque as características dos robôs industriais, como a capacidade e destreza de exercer múltiplas tarefas bem como a autonomia e controle de execução de suas funções, difere dos equipamentos e máquinas tradicionais, que configuram a base da automação vigente.

Neste sentido, países e setores com atividades industriais mais sofisticadas e melhor remuneradas – destaque dado aos setores automotivo e eletrônico – estariam mais expostos ao potencial uso da robotização. Embora os robôs substituam, em geral, atividades rotineiras, os custos dos investimentos para implementação da robotização em atividades menos elaboradas podem não compensar as potenciais economias nos custos de mão de obra. Em outras palavras, nem sempre o que é tecnicamente viável também é economicamente lucrativo.

Esse movimento, no entanto, reforçaria a tendência à concentração de produto e emprego industrial em um pequeno número de países, tornando a trajetória de upgrading industrial em direção a atividades intensivas em conhecimento mais árdua. Em consequência, surgiriam dificuldades maiores à trajetória de catching-upda produtividade e da renda per capita dos países emergentes.

O crescente uso de robôs, portanto, poderia ampliar desigualdades entre países e dificultar a inclusão em nível internacional. Tais impactos dependeriam, contudo, do estágio de transformação estrutural em que um determinado país se encontra, de sua posição na divisão internacional do trabalho, de fatores demográficos e também de suas políticas econômicas e sociais.

Não menos importantes são os efeitos adversos sobre renda e emprego que os robôs podem gerar mesmo em países que não os utilizam. Trata-se, neste caso, de um efeito indireto da utilização de robôs em outros países, uma vez que amplia a competitividade internacional das empresas, levando a um incremento das exportações de seus países de origem e menores oportunidades de produção e emprego em outras regiões. Argumenta-se, inclusive, sobre a possibilidade de retorno de parte das atividades e empregos industriais para os países desenvolvidos, processo conhecido por reshoring.

Cabe destacar, todavia, que há pouca evidência de que um processo amplo de reshoring esteja ocorrendo e, mesmo onde tenha acontecido, tal movimento tem sido mais acompanhado por investimentos intensivos em capital, resultando em baixa criação de novos empregos, na maioria das vezes concentrados em atividades altamente especializadas. Logo, os empregos que porventura retornam com a produção a seus países de origem (reshoring) não são os mesmos que uma vez deixaram o país (offshoring).

De toda forma, os resultados de uma mudança tecnológica como a que se mostra em curso a partir da robotização e de outras tecnologias que conformam a revolução digital não constituem um processo autônomo, mas condicionado pelos incentivos e políticas econômicas. O desenho e a implementação de políticas industriais digitais bem como a garantia de que os países tenham o espaço de política necessário para implementá-las cumprem papel decisivo nesse sentido.

Controlar e direcionar o potencial da revolução digital a fim de acelerar o crescimento de produtividade e produzir uma expansão econômica global mais equitativa e sustentável tornam-se necessários para se enfrentar os problemas do desenvolvimento econômico. Portanto, segundo conclui o estudo da UNCTAD, independentemente de quais sejam os impactos atuais da revolução digital, representados por uma combinação de riscos e benefícios, seus resultados finais serão delineados por escolhas de política, capacidade regulatória e normas sociais.

Distribuição dos efeitos da mudança tecnológica baseada na robotização. Todo conjunto de novas tecnologias disruptivas que marcaram as revoluções industriais precedentes, desde a máquina a vapor até a eletricidade, o automóvel e a linha de produção, resultou em perda de empregos e rendas menores para alguns setores e segmentos da sociedade, ao menos no curto prazo. Todavia, no longo prazo, os frutos das inovações se difundiram e os benefícios das novas tecnologias mais do que compensaram seus custos. Diversos estudos atualmente se indagam a respeito dos efeitos da nova revolução digital, particularmente sobre os processos produtivos, decorrentes da crescente robotização.

O debate apresenta diferentes visões sobre o fenômeno e seus possíveis desdobramentos. Alguns especialistas acreditam que os ganhos de produtividade associados à robotização serão logo difundidos. Outros, mais pessimistas, argumentam que os avanços em inteligência artificial e robótica desta revolução tecnológica, que permitem a substituição em ritmo acelerado de tarefas não apenas manuais e rotineiras, mas também cognitivas, implicam uma perda de empregos maior do que a criação de novos empregos ao longo do tempo. Mais do que isso, aponta-se o risco de perda de empregos de qualidade. Neste cenário, o crescimento de produtividade apenas beneficiaria os proprietários dos robôs e da propriedade intelectual envolvida bem como trabalhadores altamente especializados em atividades complementares à inteligência artificial, enquanto os demais seriam forçados a empregos precários e de menor qualificação.

Os robôs, em geral, ainda apresentam dificuldades em executar tarefas mais abstratas ou criativas. Do ponto de vista técnico, tendem a desempenhar atividades rotineiras com maior facilidade, o que colocaria em risco os empregos de tal natureza. Entretanto, uma questão a se considerar acerca da substituição de trabalho por capital refere-se ao fato de que o que é tecnicamente viável apenas se concretizará se também apresentar benefícios econômicos. Em outras palavras, é preciso comparar os custos da automação com os custos da mão de obra nas atividades mais rotineiras em que os robôs podem operar.

O setor automotivo é o que apresenta maior potencial para utilização de robôs, uma vez que combina elevada viabilidade tanto técnica como econômica para automação de suas atividades rotineiras. Outros setores manufatureiros, como o de eletrônicos, também poderiam apresentar tal viabilidade. Já setores com custos de mão de obra menores, como o de vestuário, poderiam permanecer menos robotizados, ainda que suas atividades fossem, em grande medida, rotineiras e passíveis de robotização. Logo, a implementação de robôs no processo produtivo varia conforme o setor, o que implica que a distribuição dos efeitos do uso de robôs dependerá da composição estrutural de cada economia.

Industrialização e divisão internacional do trabalho. O processo de industrialização tem apresentado caráter assimétrico ao redor do mundo nas últimas décadas. O aumento de atividades industriais, refletidas em maior produto e emprego industrial na economia como um todo, tem se concentrado no Leste Asiático, sobretudo na China. Em contrapartida, em outras economias em desenvolvimento, observa-se um processo de estagnação da industrialização ou mesmo de desindustrialização prematura, como na América Latina e na África.

A questão, portanto, que se coloca é quais os desdobramentos que a robótica ocasionará. Se o uso de robôs se concentrar naqueles países em que as atividades industriais também passaram a se concentrar, então os ganhos de produtividade e competitividade internacional associados à robotização lhes permitirão evitar um declínio, ou mesmo ampliar, suas próprias atividades industriais. Em decorrência disso, outros países encontrarão dificuldades em se mover ao longo do tradicional caminho de industrialização. Nestes países, a geração de empregos industriais tenderá a se limitar àqueles setores em que o uso de robôs tenha permanecido restringido por razões técnicas ou econômicas.

Segundo os autores do estudo, apesar do relativo exagero sobre o potencial da automação baseada em robôs, o uso atual de robôs industriais ainda permanece pequeno globalmente. Em 2015, o total estimado era de apenas 1,6 milhão de unidades. No entanto, seu uso tem crescido rapidamente desde 2010, e estima-se que deva exceder 2,5 milhões de unidades em 2019. A grande maioria dos robôs industriais em operação está localizada em economias desenvolvidas, que responderam por 60% do estoque total em 2015, com Alemanha, Japão e Estados Unidos somando 43%.

Os efeitos que o uso de robôs industriais pode causar e como lidar com tais efeitos ainda dividem a opinião de estudiosos sobre o tema. Alguns especialistas sugerem que reduzir a automação ao taxar robôs daria à economia mais tempo para se ajustar.

Cabe ressaltar o rápido crescimento recente no uso de robôs industriais em economias em desenvolvimento, notadamente na China. Entre 2010 e 2015, o estoque de robôs industriais na China quadruplicou e, em 2015, sua parcela no estoque global (15,7%) já superava a de Alemanha (11,2%) e a dos Estados Unidos (14,4%), permanecendo apenas um pouco inferior à do Japão (17,6%). A participação das demais economias em desenvolvimento não localizadas no Leste Asiático era muito baixa. Na América Latina e Caribe, por exemplo, totalizava apenas 2%.

O uso de robôs industriais não é somente concentrado em alguns países, mas também em alguns setores. A indústria automotiva respondeu por 40% a 45% do uso anual de robôs entre 2010 e 2015, seguida pelos setores de computadores e equipamentos eletrônicos (cerca de 15%), equipamentos elétricos, eletrodomésticos e componentes (entre 5% e 10%), além do grupo de produtos químicos, de plástico e de borracha, e do setor de máquinas industriais.

A ampla base industrial chinesa é, em parte, responsável pela elevada parcela do país no estoque global de robôs industriais. Todavia, a densidade de robôs, isto é, o número de robôs industriais por empregado na indústria, é maior em países desenvolvidos e antigos países em desenvolvimento que agora se encontram em estágios mais maduros de industrialização, como a Coreia do Sul. Conforme este indicador, as economias em desenvolvimento melhor classificadas são Tailândia (25ª posição), México (27ª posição), Malásia (31ª posição) e China (35ª posição).

A concentração de robôs em setores como o automotivo e o de eletrônicos sugere que a automação baseada na robotização não tem afetado, até o momento, os estágios iniciais de industrialização, isto é, atividades manufatureiras intensivas em trabalho e baseadas nas tradicionais vantagens de custo da mão de obra. Em contrapartida, tem dificultado o upgrading industrial posterior. Logo, os países desenvolvidos e em desenvolvimento com ampla base industrial estão mais expostos à automação com uso de robôs do que os países menos desenvolvidos. Argumentam os autores do estudo que, ao mesmo tempo em que isso não invalida o papel tradicional desempenhado pela industrialização enquanto estratégia de desenvolvimento para países de mais baixa renda, limita o escopo destes países, assentados em setores industriais menos dinâmicos e de menores salários, na trajetória de catching-up da produtividade e da renda per capita com países mais avançados, sobretudo em um contexto de arrefecimento da demanda global.

Cabe destacar que, mesmo nos países em que o uso de robôs é limitado, isto é, em que prevalecem setores industriais intensivos em trabalho e de baixos salários, as oportunidades de emprego e renda podem ser impactadas com o retorno das atividades industriais para países desenvolvidos. Tal movimento, quando ocorre, tem sido acompanhado predominantemente por investimentos intensivos em capital, sendo a pouca geração de emprego resultante desse processo concentrada em atividades altamente especializadas, perfil este bastante distinto das atividades intensivas em trabalho outrora externalizadas para economias menos desenvolvidas.

Produtividade e emprego em nível nacional. A utilização de robôs na produção está associada com o crescimento da produtividade do trabalho. Essa correlação positiva é observada tanto em países com maior densidade de robôs, a exemplo de Alemanha, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos, como em países com densidade modesta, porém com crescentes estoques de robôs, a exemplo de China e Taiwan.

Há também indícios de uma correlação positiva entre maior utilização de robôs na produção e maior participação da indústria no valor adicionado total da economia. Essa relação é mais significativa para as economias cuja densidade de robôs é relativamente maior do que para as economias cuja densidade é pequena. Vale ressaltar, porém, que muitos países em que a utilização de robôs industriais é baixa experimentaram um processo de desindustrialização em termos de redução da participação da indústria no valor adicionado total. Isso reforça o argumento de que o uso de robôs tende a promover uma concentração das atividades industriais em um pequeno número de países.

Conforme esperado, dada a relação positiva entre o uso de robôs e a produtividade do trabalho, observa-se uma relação negativa, embora tênue, entre a variação no uso de robôs e a variação da indústria no emprego total. Em alguns países cuja densidade de robôs é elevada, como Alemanha e Coreia do Sul, bem como países em que o estoque de robôs tem sido crescente, como China, houve aumento, ou apenas uma pequena redução, da participação da indústria no emprego total. China e Alemanha, inclusive, experimentaram um aumento no número absoluto de empregos industriais, enquanto a Coreia do Sul registrou um leve declínio.

Em termos de salários reais, o trabalho da UNCTAD não verificou uma relação muito clara entre variações no uso de robôs industriais e variações de salários reais na indústria para o grupo de países considerados. Maior utilização de robôs esteve associada com crescimento de salário real em todas as economias, exceto México, Portugal e Cingapura, que registraram pequenas reduções. O crescimento de ambos – salários reais e uso de robôs industriais – foi particularmente significativo para a China (cerca de 150% e 55%, respectivamente). É sempre válido lembrar, no entanto, que correlação não implica causalidade entre as variáveis.

Os resultados anteriores indicam que os impactos de um processo de automação baseado na utilização de robôs sobre diversos aspectos da indústria variam enormemente entre os países. Tais impactos, de acordo com a UNCTAD, dependem claramente de condições específicas a cada país, incluindo arranjos institucionais, condições macroeconômicas e iniciativas específicas de cada um em relação à robótica. As políticas econômicas, por exemplo, afetam o impacto da automação sobre a demanda agregada. Se os ganhos de produtividade são distribuídos e os salários reais crescem em linha com o crescimento da produtividade, a automação tenderá a aumentar o consumo privado, a demanda agregada e o emprego total da economia.

Mesmo se este não for o caso, para alguns países o emprego pode ainda se manter estável ou mesmo aumentar se a oferta adicional resultante do crescimento da produtividade baseado na automação for absorvida por acréscimos na demanda externa via exportações. Neste caso, no entanto, quaisquer efeitos adversos da automação sobre emprego e renda seriam transferidos a outros países por meio do comércio, como parece ser, em parte, os casos de Alemanha e México.

Os efeitos que o uso de robôs industriais pode causar e como lidar com tais efeitos ainda dividem a opinião de estudiosos sobre o tema. Alguns especialistas sugerem que reduzir a automação ao taxar robôs daria à economia mais tempo para se ajustar, ao mesmo tempo em que geraria receitas fiscais para financiar o ajuste. Porém, tal imposto dificultaria os usos mais benéficos dos robôs: aqueles em que robôs e trabalhadores são complementares, e aqueles que poderiam levar à criação de novos produtos e empregos baseados na robótica.

Outros especialistas sugerem, com base na preocupação de que os robôs venham a dominar as atividades de maior produtividade e salário comparativamente às atividades em geral a serem realizadas pelos trabalhadores, promover por meio de políticas uma distribuição mais equitativa dos benefícios advindos com o uso crescente dos robôs. Caso contrário, uma vez não controlado o uso dos robôs, seus efeitos distributivos iriam no sentido de aumentar a parcela da renda destinada aos proprietários dos robôs e de sua propriedade intelectual, exacerbando, assim, as desigualdades já existentes.

A robotização também poderia criar novas oportunidades de desenvolvimento. O avanço de robôs colaborativos, os chamados cobots, poderia ser eventualmente benéfico a pequenas empresas, uma vez se adaptando rapidamente a novos processos e requerimentos de produção. A combinação entre robôs e impressão tridimensional (3D) poderia criar possibilidades adicionais para empresas industriais pequenas a fim de superar limitações de tamanho na produção e, assim, conduzir negócios em escala ampliada. Ao mesmo tempo, a robotização poderia levar à fragmentação da oferta global e do comércio internacional de serviços, abrindo novas oportunidades de estratégias de desenvolvimento para economias menos desenvolvidas, embora permaneçam incertos os efetivos ganhos em termos de emprego, renda e produtividade que os serviços digitais podem ocasionar, sobretudo se comparados aos tradicionalmente gerados pelas atividades industriais. Cabe ao conjunto de políticas a serem adotadas ponderar os riscos e benefícios da robotização a fim de escolher qual caminho trilhar.


IEDI

Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial


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