Notícias

Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro fala sobre os 100 anos da entidade

Em entrevista ao site da Fitmetal, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro analisa os 100 anos da entidade e o atual momento político do país.


POR Murilo Tomaz - Fitmetal

Publicado em 29 de abril de 2017

Jesus Cardoso, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro

Foto de Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro

O Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro faz 100 anos no próximo 1º de maio, Dia do Trabalhador. A comemoração oficial acontecerá no dia 6, sábado, para não coincidir com as mobilizações do feriado. A festa terá homenagem às figuras históricas do sindicato, sorteio de prêmios e shows de pagode e escolas de samba. A marca histórica do primeiro sindicato operário metalúrgico criado no Brasil já vem sendo prestigiada nos últimos meses. Em novembro do ano passado, foi realizado o Seminário: 100 anos do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro e 100 anos da Revolução Russa 1917-2017. Durante 2016, o jornal Meta trouxe, a cada mês, um pouco da história do sindicato nas suas páginas.

Leia também:

EDITORIAL: 100 ANOS DE LUTA: FITMETAL PARABENIZA O SINDICATO DOS METALÚRGICOS DO RIO DE JANEIRO

GALERIA DE FOTOS: VEJA IMAGENS HISTÓRICAS DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DO RJ

Junto a isso, o sindicato foi homenageado, no último dia 27, em uma sessão solene na Câmara dos Deputados, em Brasília. No próximo dia 4 de maio, os diretores da entidade participarão de uma homenagem na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. No dia 25, a homenagem será feita pelos deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Ajerj). Em breve, serão lançados uma revista em comemoração à data e um documentário sobre a história do sindicato. A previsão é de que o documentário seja exibido em outubro, durante as comemorações do centenário da Revolução Russa.

Para saber mais sobre esse marco centenário, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, Jesus Cardoso, falou ao site da Fitmetal sobre a história da entidade e também sobre o atual momento da indústria e da política do país. Confira:

Fitmetal: Há poucos anos, o setor naval brasileiro tinha quase 80 mil trabalhadores, após o golpe esse número já caiu para menos de 30 mil. Somado a isso ocorre um processo de desindustrialização que afeta todos os setores produtivos. Após a reconstrução do setor naval a partir do governo Lula, a diretoria do sindicato imaginava que chegaria no centenário da entidade dessa forma, lutando para que o setor não seja liquidado pelas investidas de um governo ilegítimo?
Jesus Cardoso: Nos piores pensamento nós jamais imaginaríamos que em dois anos e meio depois daquele auge de 2013, 2014, estaríamos nessa situação de desmonte do setor naval nessa crise sem fim. Como eu disse, nos piores pesadelos jamais sonharíamos com essa situação, porque todos os prognósticos apontavam para vários anos de evolução. O que se acreditava era que ao chegar no auge o setor se mantivesse por um período longo. Pelo menos de uns dez anos. Pela carga de encomendas que tinha, os projetos que existiam, a previsão era para até 2025, 2026. Era uma estabilidade para quase uma geração, mantendo o desemprego em um patamar razoável. Hoje a gente não tem nada concreto. Temos só dúvidas e pensamentos sobre o que vai ocorrer no dia de amanhã.

Fitmetal: A fundação do sindicato se deu em um momento de efervescência política e social, com as greves de 1917 aqui no Brasil e com a Revolução Russa, que criou um novo paradigma para o século. Agora, em seu centenário, você enxerga que o Sindicato e a sociedade passam por um momento similar de agitação em que a classe trabalhadora precisa estar cada vez mais unida contra retrocessos?
Jesus Cardoso: Por coincidência, se for pegar o que está acontecendo hoje no mundo, é um ‘déjà-vu’ de cem anos atrás, oitenta anos atrás. Desses períodos onde ocorrem a primeira e segunda guerras mundiais. Foi nesse primeiro período de crise em que surgiu o sindicato e, na verdade, como disse Lavoisier: “nada se cria, tudo se transforma”. Mas está se transformando no que já era. É uma crise em que precisamos continuar lutando, pois é uma crise permanente da direita. Hoje é a direita, mas no passado foi o nazismo. Utilizam de outras palavras para o mesmo objetivo. Hoje vemos a França embarcando em um nacionalismo, mas isso já existiu em outros tempos. Vemos a Holanda que não conseguiu eleger o candidato de extrema-direita, porém chegou perto. Nos EUA, a maior economia e que chegou a dominar o mundo, foi eleito um lunático (Trump) que está pensando mais para dentro, esquecendo o restante. Então, na verdade, não temos definição para onde vai a humanidade. A questão da tecnologia fez com que a gente ficasse em um limbo. Não sabemos qual a ideologia está predominante.

Jesus Cardoso: "Este ato tem que ser o início da virada para combatermos essas propostas que estão vindo de Brasília pelo governo golpista".

Fitmetal: O sindicato teve participação ativa contra a ditadura militar e durante a abertura política. Como foi esse momento?
Jesus Cardoso: O sindicato foi atacado, por isso tivemos grandes intervenções. Lutamos contra a ditadura militar, contra o governo. Tivemos várias lutas como todo cidadão de bem, de esquerda, que naquela época lutou. Então o sindicato fez o que deveria ser feito contra a opressão. Os trabalhadores ao longo da história sempre foram oprimidos, por isso continuamos a lutar, porém com uma luta maior pois era para defender a soberania nacional contra o golpe militar. Na abertura política, nos anos 80, o sindicato fazia as suas grandes greves, e ajudou no momento histórico.

Fitmetal: O centenário do sindicato é comemorado logo depois da Greve Geral que parou o país no dia 28 de abril. Como você enxerga a importância dessa nova greve, sendo que a última Greve Geral ocorreu há mais de 20 anos?
Jesus Cardoso: Três dias depois da Greve Geral temos o centenário do sindicato. Isto é duplamente um fato histórico. A outra Greve Geral que se teve no Brasil foi no século passado. Essa nova greve é para mostrar que a gente não esqueceu como se luta pelo direito dos trabalhadores. Isso vale para todos os sindicatos, inclusive o nosso. Temos a nossa luta particular aqui, mas isso somado com a luta de cada um no seu quadrado mostra para esse governo e para os próximos que os trabalhadores não aceitam retirada de direitos e que não irão perder as suas garantias históricas sem luta. Mesmo que a gente venha a perder alguma coisa, nós vamos perder lutando. Esse é o nosso papel. Nosso papel não é ficar na janela vendo a banda passar. A sociedade não pode ficar nessa letargia em que está. Este ato tem que ser o início da virada para combatermos essas propostas que estão vindo de Brasília pelo governo golpista.

Fitmetal: Qual mensagem você deixa para os metalúrgicos e metalúrgicas do Rio de Janeiro em referência ao centenário do Sindicato?
Jesus Cardoso: Nós, metalúrgicos do Rio de Janeiro, vamos honrar essa história centenária e as gerações que passaram e que lutaram aqui. Nós vamos continuar lutando e defendendo os direitos dos trabalhadores, pois este é o nosso papel histórico e também é o nosso papel frente a essa crise aguda que vivemos. Esperem desse sindicato: luta, luta e luta.

Sessão Solene na Câmara dos Deputados homenageia os 100 anos do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro

Foto de Reprodução

Últimas Inclusões