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"Temos que lutar pela unidade e contra o pluralismo sindical em todo o mundo"


POR Fernando Damasceno

Publicado em 17 de janeiro de 2019


O secretário-geral da União Internacional Sindical de Metalúrgicos e Mineiros (UISMM) da Federação Sindical Mundial (FSM), Francisco Sousa, vê na unidade de ação a principal estratégia da classe trabalhadora para evitar maiores retrocessos. Em um período marcado por grandes dificuldades em todo o planeta, o dirigente observa também que o pluralismo sindical é uma estratégia utilizada pelos grandes capitalistas para enfraquecer a luta da classe trabalhadora.

Nesta entrevista, o dirigente faz um panorama do atual estágio da crise capitalista mundial, enumera as dificuldades enfrentadas por metalúrgicos e mineiros pelo mundo afora, recorda das principais tarefas estabelecidas pelo 3º Congresso da UISMM (realizado no Egito, em julho de 2018) e expõe um pouco do cenário atualmente vivido pelo sindicalismo no Brasil, presidido desde 1º de janeiro por forças de extrema-direita.

Confira abaixo os principais trechos:

O ano de 2018 se encerra com muitas incertezas para a classe trabalhadora mundial. A direita obteve avanços em diversas regiões, inclusive no Brasil. Por outro lado, vemos uma forte resistência a esses avanços em países como a Hungria e a França. Como você acompanhou esse cenário ao longo do ano?
Temos que observar o ano de 2018 como um período no qual vimos o agravamento da crise capitalista. Esse é um ponto central. Poderia ter sido diferente? Sim, pois a crise completou uma década, com idas e vindas e uma série de acirramentos em proporções ainda inéditas. Se a crise de 1929 desencadeou na Segunda Guerra Mundial, o que virá pela frente nos próximos anos? A História nos lembra que, naquela ocasião, se por um lado vimos a ascensão de regimes de direita (derrotados pelos Aliados), vimos também o surgimento e a consolidação de algumas experiências no campo socialista. Vimos a consolidação da União Soviética como potência e no período seguinte tivemos revoluções como as ocorridas na China e em Cuba, nações que optaram por alternativas em relação ao sistema hegemônico do Século 20. Se a União Soviética foi desmantelada após sete décadas, hoje vemos que a Rússia ainda é uma grande potência, fundamental para o equilíbrio geopolítico mundial.

O cenário colocado hoje exige de nós uma análise mais aprofundada. A questão fundamental é que logo na primeira década do Século 21 o sistema capitalista não foi capaz de impedir uma crise histórica, cujas consequências ainda veremos quais serão. O mundo sofre demais com essas incertezas. Há uma nova forma de se fazer guerras, a partir de uma liderança dos Estados Unidos. Há um direcionamento para dizimar nações que sempre se colocaram como resistência ao imperialismo, tanto na ideologia quanto no campo econômico. Foi assim com o Iraque e a Líbia. Está sendo assim com a Síria, a Venezuela e também com o Brasil. Para cada caso, foi adotada uma estratégia muito específica para acabar com aqueles que não comungam com o ideário vigente.

Falando especificamente sobre o Brasil, estivemos longe de qualquer revolução social, mas o mero fato de termos experimentado algumas mudanças de grande relevância foi o bastante para que todo esse movimento fosse estancado. A Europa, por sua vez, liderada pela Alemanha, volta a ter dificuldades já vistas no passado. O Brexit é um caso emblemático dessa disputa de poder, algo que pode levar a uma grande ruptura, com chances de vermos forças de extrema-direita saírem muito fortalecidas desse processo.

Nesse cenário de incertezas, como os metalúrgicos e mineiros de todo o planeta têm sido afetados?
Precisamos separar as categorias de mineiros e metalúrgicos, pois cada uma delas tem suas peculiaridades. Os mineiros compõem um setor econômico fundamental. Conforme se exploram mais os recursos naturais, percebemos que no mundo inteiro há uma movimentação para fortalecer a precarização do trabalho nessa área, com condições mais terríveis, com menos segurança, mesmo sendo uma atividade que envolve tantos riscos e muitas mortes. Em países que ainda têm uma legislação frágil, como no Oriente Médio, no norte da África e em alguns locais da América do Sul, seguimos vendo uma grande dificuldade para investir nessa área. Continuamos ouvindo muitos relatos de situação de trabalho extremamente precária, mesmo numa atividade que gera tanta riqueza a partir de recursos da natureza.

Vale neste caso fazer um paralelo com a área de extração de petróleo. Os petroleiros têm um reconhecimento muito alto. Sua atividade é bem remunerada e bem cercada de todos os aspectos de segurança. É nossa tarefa lutar por mais reconhecimento, mais segurança e maior cuidado com a saúde dos trabalhadores mineiros.

Sobre os metalúrgicos, a situação é bem diferenciada. Nos países em desenvolvimento, precisamos analisá-la sob o prisma da desindustrialização. Estamos assistindo a uma nova fase do capitalismo, agora sob o viés da financeirização. Em curto espaço de tempo isso trouxe problemas enorme aos operários do ramo metalúrgico. A indústria automotiva e a indústria de transformação em geral estão vendo o surgimento de novas tecnologias que aos poucos substituem a força humana por máquinas.

Falava-se muito em um passado recente de automação e telemetria, num sentido de tornar o processo produtivo mais eficaz. O ser humano foi colocado à prova, numa luta para tentarmos manter o maior número de empregos possível. No entanto, hoje temos a robótica, a nanotecnologia, a inteligência artificial e novos fenômenos que conseguem, em curto espaço de tempo, reduzir a mão de obra necessária nos mais diferentes ramos em que atuamos. A Revolução 4.0 já é uma realidade.

Isso afeta toda a cadeia produtiva e nos preocupa muito. Nossa categoria, mesmo assim, segue como vanguarda entre a classe trabalhadora. Precisamos ter essa consciência. Um telefone celular não surgirá do nada, como passe de mágica, totalmente elaborado por robôs. A fabricação de componentes, seu design, seu projeto serão atividades feitas por seres humanos.

A área de serviços tem avançado muito, com mão de obra muito mais barata e com menos direitos. Essas categorias já entram no mercado de trabalho em condições precárias. A ideia dos capitalistas é igualar as categorias de ponta, mais organizadas, a esse mesmo padrão. Temos a tarefa de nos organizarmos para debelar essa ganância, essa busca pela extinção de conquistas históricas da classe trabalhadora.

A UISMM realizou seu 3º Congresso em 2018. Esses temas foram motivo de debate? Quais perspectivas para essa organização, em meio a tantas dificuldades?
Sobre o 3º Congresso da UISMM, toda sua organização gerou uma grande expectativa, por causa das dificuldades que vivemos ao longo dos últimos anos. Dentro do contexto que vivemos entre 2013 e 2018, tentamos criar alternativas para não deixarmos que a luta retrocedesse. Procuramos levar alguns temas como pauta para debate, entre elas essas questões mais específicas do metalúrgicos e mineiros. Tivemos uma presença de delegados significativa, fato que me leva a analisar todo o processo como positivo. O 3º Congresso nos trouxe uma série de desafios, tão grandes quanto as dificuldades que teremos pela frente.

Apesar de toda a escassez e todos os ataques que sofremos nos últimos anos, temos a convicção de que o movimento de metalúrgicos e mineiros da FSM vai resistir. Estamos buscando alternativas para seguirmos como vanguarda da classe trabalhadora, rumo a uma virada nesse embate com o sistema capitalista.

Temos uma agenda para 2019 e precisamos analisar de que maneira as novas tecnologias podem auxiliar o nosso trabalho, já que os custos com viagens internacionais são muito altos. Precisamos aproveitar para fazer bom uso de todos os espaços que obtivermos. O nosso objetivo em 2019 é fortalecer nossa organização e auxiliar a FSM em sua luta constante pelo fortalecimento da classe trabalhadora. Existe a perspectiva de expandirmos nossa fala enquanto organização classista e operária. Creio que a garantia de direitos, a soberania dos povos e a consciência de classe devem nos guiar.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem um estudo no qual afirma que somente no século 21 já foram feitas reformas trabalhistas em mais de 100 países. Como o movimento sindical deve se preparar para os novos tempos que essa avalanche sinaliza?
Sobre as reformas no mundo todo, precisamos analisar de onde estão vindo as resistências mais eficazes. Precisamos entender alguns fenômenos. Em alguns locais, teremos que passar por uma completa reconstrução. No Brasil, por exemplo, estamos resistindo a essa reforma, que já traz consequências gravíssimas para nós que estamos na luta. 

A negação de alguns direitos e a reestruturação da legislação trabalhista vieram com um viés ultraliberal. É preciso certamente pautar a unidade como estratégia principal e a unicidade também, como forma de combater o pluralismo sindical (algo que a meu ver contribuiu para enfraquecer o movimento na Europa). Se formos empurrados para esse modelo, creio que não teremos como dar continuidade à luta. A experiência de outras nações deve nos guiar para evitar esse tipo de retrocesso. E, claro, sem deixar de lado a consciência de classe. O sindicalismo classista, diante dos outros modelos colocados, precisa ser apresentado como a única opção para impedir que tenhamos uma derrocada histórico. No futuro, caso prevaleça o pluralismo, será muito complicado para identificarmos quem realmente está na luta e quem faz o jogo dos patrões. Temos que lutar pela unidade e contra o pluralismo sindical em todo o mundo. Isso precisa ser defendido desde já por todos nós.


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